Para Karla Selide, com amor
Pego da lousa para riscar em giz o que não digo, envio à ti por convulsão de últimos instantes, que não leia ou se o saiba, possa saltar o que está escrito e aproveitar esse amontoado que ficará na memória como sem-sentido. Mas insisto que chegue aos teus olhos por esse tipo de correio porque do outro, jamais teria em mãos qualquer materialidade do escrito, infelizmente abrem, mexem, e podem mudar o significado. Escrevo na sílica, nessa areia despejada, feita de aproveitamento. Nem é escrita senão porrada. Mas triste suavidade que nos fere.
Karla Selide, aqui encontrará o que não foi escrito, eu me anteponho a qualquer entendimento que sei, incerto. Saberá por outros o que de minha retraçada linhas quase falo. Verá que nem desculpo e também nem aponto o que sei de ti. Como um pastel que se busca mais o conteúdo e se pensa em travesseiro, entende? Claro que não. É como uma nova teoria que começa sem fundamento e se vai segurando nos postes sujos das vilas querendo ser iluminada, e não há luz em lugar algum.
Sem dizer, narrar ou explicar, os acontecimentos estão recheados com a fala de outros. A contra voz do sentido. São significados que vieram dos velhos manuais de uso, informativos secundários, às vezes, enciclopédicos. O salto é sempre perigo ante a absoluta corrosão do entendimento. A curva diz que é para seguir a direção, e se vai reto, é como uma metáfora cuja reincidência do significado mata a existência. O essencial está em outro lugar, alheio da condição miserável das liberdades mortas, e da fome que a mantém pútrida.
A crueza espetacular que a respeito de algo que não se apropria, sente rugir o estômago animal.Frente a qualquer dúvida, acatar, se finge alimentado, sorriso cordial com etiqueta e preço. Mas é invenção de recatada inteireza, e a vida segue secundada pela parva certeza de ser nada.
Eu a cumprimentei e quase ressoou um grito, como se a tivessem descoberto. Algo fez errado que infelizmente, não se pode pensar, não está na apostila, no resumo de algum códice, nem no talião se encontra, nunca foi debatido no talmund, e jamais foi possível entender na ascese, ou no livro das obrigações. Seja como for, escrevo para que saiba que não me importo com os pecados e penitências, não o perdoo porque não posso. Sinto. Também nem sei do que se trata.
Andou nua na livraria e ninguém notou a imensa estupidez dos livros. É isso. Abandonou mãe, pai, filho e foi viver a vida. A vida comprimida é sempre proveito de cápsulas, das famosas injeções líquidas que enfermam mais do que curam das banalidades.
Não se preocupe se tentou matar alguém, o trivial sempre vence. Olha, o desejo de fazer as coisas escondidas, ter o medo da descoberta, isso e aquilo, as vozes debaixo da escada, o barulho no sótão, o terror dos úteros sociais que cochicham e apontam. Karla, Karla, nem dê bola.
Por que será que gritou tão alto que não pude ouvir o som do suplício: o som no ar, levado pela materialidade, e não esse, imperdoável, engolido pela garganta de tantos desejos. Espero que esteja melhor, que não mais se assuste com a minha presença.
Não vou contar sobre suas aventuras, tudo não passa de bobagens. Você é uma capitalista como a maioria das pessoas são, tem o corpo como propriedade privada e acredita que pode possuir outros, encher a sua alma de corpos, corporeidades que acumula, troféus de prazeres e sutilezas. Tolice. Não acho que pense assim, acho o contrário.
Sabia Karla, quanto não entende, que estar só é o seu desejo, unindo-se a tantos, buscando se encher de sentimentos, de chegar a si mesma. E isso te devolve ao estado de solidão, a essa proto referência de si, o espelho duplo que esconde a sua sombra, e sua luz, a existência. Há nisso o colapso das verdades que toca, a materialidade dos prazeres que acabam nulas, desprazeres alimentados.
A ligação com o mundo se exauriu, perdeu a coesão, tudo novamente e outra vez, se repete no fundamento principal da perda. Também é Karla, um modo de se recuperar, mesmo que em pedaços do reflexo despedaçado, juntar os cacos e outra vez repetir.
Não digo que seja desvalorização, a alma hedônica possui muita fé em se perder e se encontrar. Isso acontece. É inevitável que volte a pensar, que o seu descanso tenha tanta carne. E nunca se sente usada, mas usuária. Certa improbabilidade de chorar, talvez como efeito do não entendimento.
Alma perturbada, quem sabe um pouco ou muito desprovida, e cansada. Provocar a atenção, criar segredos. Esconder o óbvio. E no instante que se apega, abraça o estrangeiro, busca dar significado ao sentido perdido. Cria doce mentira, inventa a sua fantasia, faz que sofreu, e se despede da amargura. Fica indiferente do que possa ser, arrependida nunca, desconhecida.
E sofrer Karla Selide, sofrer até não mais poder, como que que alguém lhe tocasse com farpas, apenas para anunciar que existe. Até o fundo, atravessada na pele. Belas invenções, todas reduzidas, ilusões, fingimentos baratos que custam a fragilidade. Karla, como se faz transparente, a mente que alimente das leves plumas das poucas verdades, e elas todas inteiras finas, alegres em sua tristeza, cintilam desespero.
Saudades, sinto saudade de não te encontrar novamente. E se amasse alguém, perderia instantaneamente. O medo pavoroso da certeza do amor. Um horror. Precisa acreditar que tudo passa, nada perdura. Casamento de crenças, amar de verdade. Isso te faz mal. Há tantos outros que o um é apenas consentimento. Terror de sonhos adornados.
Ah! Karla, aventuras deliciosas, os perigos, as armadilhas sempre renovadas, amadas do secreto, de beijar o proibido, de se desfazer de qualquer ternura, por carícias de desejo. Mesmo sem desejo algum, apenas o prazer do escondido. Exaltar o falso, os riscos e riscos, os passos e passos, a alcova suja, limpa, o cheiro da pestilência, maravilhosa, desamor como compaixão por si.
Viver o inacessível, percorrer os labirintos do acaso. Acaso existisse no copo dados, jogaria nas mãos do infinito deus das dúvidas. Evitar o outro, ou convidá-lo à surpresa do engano, da bonita mentira, do triste riso plácido, da necessidade da cura. Com tantos, vem o fim, tudo acaba, e outro novamente se dissolve, e volta-se para a solidão, tudo o que deseja. Coletora da floresta humana, a carne fervente da displicência.
Linda alma cheia, Karla, vazia quanto se envolve ao que se deixa, e repete a perda que se enche e novamente se completa.
Adorei te conhecer Karla, jamais te lembrarei outra vez. Me escreve, conta de suas bravuras, como finge a vida, a alegria rediviva e doída. Me conte quando voltará dessa fatigante viagem. Fui na livraria e o atendente que é também alguém parecido contigo, de um certo jeito, ele me disse que fará uma performance relâmpago quando o público frequentador vir de máscaras para a leitura pública de Caryl Chessman. Se for, não ouvirei a leitura, nem lerei, nem moverei uma página porque quero ver a sua trovoada e a nudez de um relâmpago. Por nada.
Apenas para não me submeter às intervenções burocratizadas. Tenho passeado de terno e gravata para convencer as pessoas comuns que a vida comum necessita de performance. Elas atentam, negam, fazem cara feia, movem a cabeça do alto de suas trivialidades, encaram, enfrentam o mundo a pontapés, rindo da desfaçatez do ordinário. Olha aquilo. Onde já se viu. Nossa, que coisa engraçada, um homem.
Digo besteiras, minha cara. Karla Selide, quem diria! Jamais pensei em você um dia. E está aí novamente, novamente frente à efervescência do desplante, do descaso naturalizado, do cinismo afetivo, dos interesses ao gozo, à toda efemeridade que avulta em quantidade e solidifica nossa bela distância.
Se eu perguntar, garanto que vai replicar: não entendi. O lindo discurso do instrumento que deseja ser o aplicativo. Botão não é o aplicativo, nem mesmo o aplicativo é ele mesmo, e a máquina que desliga não nasce novamente como se nada tivesse acontecido, ainda mais, depois de tudo. Queria lhe mandar para o inferno, mas seria a pronúncia ridícula de qualquer tautologia. Prefiro enfrentar as horas tardias, a perda do descanso, o amor que não tenho por essa vida. Aceitar.
A gente deve procurar ser cético, os prazeres dormidos, as emoções afogadas no ladrilho onde ainda permanecem com um pouco, não muito sangue. Estóico na vida pragmática e pouco prática, de fazer e refazer cotidianamente, como um turbo que solta suas fumaças e não concebe a luz fumegante da pura energia. Sei lá, mal sei o que digo Karla. Sei que a verei em alguma escada rolante, em uma pose rechonchuda de frágil e displicente alegria. É a vida.
Viver, enfim, dar morada à morte como se pudéssemos fazer respiração boca a boca para salvarmos os anjos da guarda. Eles partem fácil, um e outro pendurei em um balão para que o senhor de cima alcance suas perdas. Não é fácil, não, não é fácil minha querida. E como vai o Lesmo, o cachorro, te pergunto. Nome de quem desenha os paços em prata, derrete no sal, descansa antes de latir, se engasga com o que vê.
O Lesmo parece contigo. Se desmancha, mal abana a cauda, segue os trilhos que constrói seguindo a sinalética da moda, das formas, e do hedonismo existencial. Deixa lá. Penso tanto, que o amontoado do mesmo junto é um abandono coletivo.
Me mande notícias sobre suas atividades. Um modo pleonástico de viver à espreita do impossível, ou como se diz, diz sem saber da raiz que se repete a forma incontida, aquilo que escapa da alma dormida. Um descanso dessa vida.
O tempo vai mudar, não sei para melhor ou pior, talvez possa saber que vai mudar por dentro das horas no recôndito do crime e da covardia; e caia o dedo, a honra vai morar na sarjeta, os méritos por imprestáveis serviços de uma nudez desculpada, de juventude sem pensamento, da ignorância amável.
O tempo é dinâmico, ele não permanece na correção dos significados apenas, logo chove sobre o descaso, uma chuva quente, talvez, - quem sabe? -, desperta o giro sináptico, mudança de trilho, descarrilamento sem parada na costumeira estação, e se tenha, ainda que doente, algum triste sentido. A repetição tem sua forma imutável, alética, o espaço muda e se tropeça, o chão das sementes fará brotar à boca outras palavras, ainda que inaudíveis, impossíveis, mesmo que vazias.
Karla Selide, não precisa responder, moro no mesmo lugar, sem endereço. Continue com o que melhor encontrar, e que o acaso e o projeto vulgar permita sonhar, um modo de partir desse mundo sem ter de sofrer. Morrer no ato de respirar.
Aguardo com carinho a tua resposta, com afeto.
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