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Mostrando entradas de febrero, 2022

Posso dizer

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 Espero que esteja bem. A pergunta que fez recebe a minha resposta, vai de esguelha. Como posso contar.  À primeiro vista parecia muito com esparadrapo a esconder machucados. Com outro olho comia tédio de colherinha, prato de sopa quente. Queimava a boca na fala, o respiro da panela de pressão cantava. Num piscar, mudava a cavalgadura, isso piorava quando entrava no baralho. Era grande, antes dos pelotaços que recebeu por causas de cartório. Se safou na ponta das órbitas que ficaram duras. O túnel do olhar era aramado com anzóis. Alto e desgrenhado no vestir, vivia amoitado nos assuntos de dinheiro. Ia pescar como que tivesse gosto, passava horas do dia até o entardecer. Ia pelas balas de riachos, nos dormes de lagos, arrumava a quiça do lado das taboas, atava os lobós em fieira. Vinha limpo, apertava o cenho para a sorte. Vendia fiado e sabe como, ganhava dobrado. À noite nos espreitava a medir o peso da porcada. E quando saía Lua, esticava os tapetes. Deitava com as crias. E...

É-de-morte

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  Contou-me que desgostava as caras peladas, a voz fingida de rouquidão, o olhar intrometido, o toque, e já abraço, tapinhas na cara, nas costas, um beijo, risadinhas carnais, os muxoxos, rebolado, a nudez, o caso é o descaso, fala alta e olhar de desprezo, gestos de nobreza, assuntos sobre pasta de dente, e o sarro na voz cheia de vogal, a oferenda, e o jeito de intimidade que aponta a pessoa.      O lugar, tudo coisa, aquele fervor, o desembaraço de livrar a conta, dar o pinote, ver se estou na esquina, a navalhada, mexer nos bens alheios, abrir a geladeira, rir na cara das exigências, se meter a sábio porque toca umas musiquinhas na orquestra, os papos de exposição realizada no fundo da recepção de uma pensão. Vendeu a empresa para um tal de fala mansa que não diz oi para não gastar a verve, dormiu no átrio das pentecostes de um casino entre lágrimas   e exaltações dos que perdem as calças ou saem arrumadinhos. E as vantagens de poder, a ferir, cortar, mijar ...

Lenha

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       Perto da ribeira, achei um pé de sono-brabo. Chego lá, pego a trincheira, linha no rio, volto sem marcar, acendo lenha queimada para não dar aviso, água da mina na quasca, queimo um fagode, me encosto na cidreira e fico chilando o tent. O bambu roda, pego lá o que tinha na espera, rasto o corpo até, e vem no bocó rabanando, acerto a gordura num couro da terra e vieso do embornal uma quina de sal na trinqueira do lobó. Daí, cato cebola da beira várzea e jogo pro riva, giro na forquilha, e daí descantar. E vou provando saúde. E vou ajustar o gosto bem logo que vou lá; fico o dia inteiro. Faço café, acendo o pito. Mal ergo a aba, sol já indo. Sinto um taco no ar.      Era pronto. Parece que o veio da curva da trilha escreve. Já nem digo, vem logo. Ela aparece se fazendo de canela fina. Mal me senta ao lado vou buscar uns. Vêm de par da espera, levo na fieira. Ela faz de vergonha para não aborrecer o teto que ficou lusco. Foi a tua mãe que mandou; t...

Faca amolada

  Aqui em casa a gente abre o noticiário na faca dando volta ao mundo Vamos tirando a casca cortamos as partes ruins os gomos carcomidos um cansaço de esforço O que não presta provar jogamos cinza e cal para não ficar o mau cheiro impestando o ambiente amarramos a sufocar em sacos plásticos biodegradáveis Pedimos perdão à vida Colecionamos a etiqueta do preço Sobra um talinho verde de esperança deixamos secar as sementes

Daqui a pouco

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Daqui a pouco; veio. Faz tempo que chegou com a nora. E fica na memória que se foi, nem pisou o vão da cozinha. Adoçou o azedo, espalhou o cheiro de limonada, e ergueu o cabelo. Subiu a serra, agorinha que se levou para beijar Rosinha, e ela fez que não deixou, e já de rouco conversa baixinho. Avózinha de nenhum pranto. Ri de pouco. Amassa mais ele, a filharada. De cedo, sem durar a hora, no instante que apreceu aquele de afora. Que se morreu nem foi embora. Era o que começa, vem lá e cora. Isso de longe, bem aqui dentro, logo agora.

Mexerica

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Ele dizia

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Espero que entenda

A esperança é o presente na caixa. Difícil abrir. Está mergulhada na profunda água turva de nós-mesmos

Recebemos o cartão do banco

A nossa família agradece aos predicados, devolveremos com substantivos adjetivos, assim que o verbo se fizer dinheiro.

Obrigado pelo presente

Tropecei, estendi os dedos bem piano, com arcada para não ficar de boca. Aproveitei a posição para uma flexão de braços. Sorte que é mentira. Na verdade corro perigo. Não tenho reflexão para chinelos.

Uma comédia que nos expõe

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 Uma comédia que nos expõe. E nos põe fora. É fria, fica dura, sarcástica no conservadorismo picles do discurso. Grita calada, sufocada porque vive da relutância. Sem valor, sem ética. Comunitarismo fascista disfarçado. Tem não sei quê de hálito pernóstico com cheiro de hortelã. Sequências quebradas para inspirar o louvor à perda, à deusa falta de oportunidade. No lodo do sistema de composição, dançam de escarlate a velha empalamada frase de efeito, é protestantismo salvador, organizado em algum códice dissecado do talião. Calma repentina e mórbida. A ridícula protetiva encenação. A comédia desumana, técnica e sem alma flutua. Se faz de fraca e pobre, a riqueza com malabarismos que dão ânsia. O mesmo céu turvo, antigo esquemático que nos aponta como Senhor dos universos, o kitsch, a última novidade poética, dedos e olhos armados, claro.           A vida à venda. Eles todos ao entorno, vendidos. Para o fim, miseravelmente opresso, como sempre o perigo...

Nadar

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Agora voltar para dentro, virar letras, derrubar palavras. Cuidar da matéria viva que anda escorregando das mãos. Pegar o tento, os pontos do jogo que vêm em caixinhas,e marcar cada dia a partida. Meditar e transcender o ilusório. Nadar é para sempre. Sempre nada. E viver pode ser depois de tudo. Por isso alegria, dobrar o rosto no riso. Marcar na face o temporal para curtir a estiagem. Exige-se prática. A economia do amor paga com juros felicidade.

O que fiz

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     A gente se enche de nós mesmos Queremos pôr quem somos fora E logo nos ajudam Impelem-nos para o velho precipício umbilical Vamos rapidinho para o buraco Caímos lá no profundo raso Ainda vemos as mãozinhas de ajuda E são muitas adoidejadas Mas que bobagem Levantar-se da cambera Caminhar em si mesmo Sair de partida Abandonar aceno de despedida Fazer das tripas o coração Apertar o pulso Rumar do fim ao início Nem se queixar por causa de meio passo Logo ali o cão na rua O bicho que fala e na esquina que mal chega o que lavou e empurrou a chuvarada Trambolho do vento atormentado o calor que entra no inverno E desabrigo Está em pé O mundo mudou de lugar nem sabe onde foi o nariz e o que faltava a escuridão persiste ainda que iluminada Falei para Dorinha que cavei mais um buraco na Lua fui de mim a meu encontro corri mundo E não é que eu estava lá? Ela com o jeito dela me olhou e me disse que fiz bem Disse com amizade que só amor contém: Delino Me chamou põe na ...