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Torrar o tento

  Eu havia lhe dito Papai a rezar que ainda estava na forma ao leite Mas isso demora! E mamãe fazia aziaga com tormento Descasque as dúzias Vendiam assim Que coisa! Ela joga: banana no cuque que é bom  Saía risadas, espalhava ramas delas pelo chão E papai tomava a briasca  Montando a peixaria: bacalhau quer alhos! E riam no enfrentamento desses E se foram aos fornos E deixaram tais lembranças

Fui alegre que nem acredito-me

  Sou outro. Hoje, um monstro feio, enojado com a existência. Fui ao mercado Aprendi não mais ser eu mesmo, alegre, e estabanado. Perguntei com pinças nas palavras se estava triste Aquela carinha de dor olhou-me a quase não dizer “A vida, as feias experiências me fizeram assim. Tenho essa cara sempre.” Num bonito acento carregado deu um riso entristecido” “É assim.” E era o que é. Perguntei com máscara cirúrgica de onde veio. “Bahia.” Muito quente, dava-se para ver as ações reconhecidas nos rios que entram no mar com as forças olorosas da legalidade. Fiquei ainda mais passado, parvo. Um mundo todo alegre: a seriedade imponente, orgulhosa, de uma beleza silenciosa, e a sensação de invasão em um mundo em que todas as diferenças são iguais. Alguém pode chegar e chegará para pôr ordem a qualquer ato desagradável de misericórdia. Queria que viessem todos, haveria uma quietude alegre e elegante de uma honra que obedecesse o ambiente. Seriam vizinhos. Poderia ler. Antes de carregar os man...

Chove

Choveu e as águas dormiram Cantilena da descida Poças sujas, doces, luminescentes Foram nuvens Agora borbulham aglutinadas, sempre partem Reflexo do que foram Arrastam-se pelos canais, lavam as valas imundas, e são caudalosos rios Esgotos planejados Esticadas em sonhos, dançam nos excrementos, vaporosas, gélidas, congeladas Serão neblinas, o rocio a se erguer, luzes de orvalho, garoa, temporais Oceanos envelhecidos, renovados Caem agora suavemente O razo tropel das profundezas

À chegada do bebê

  À Mirian, minha irmã. Lembrança de meus três anos. Eu me lembro de hoje, o dia que foi ontem. Você chegou, quase essa hora. O tempo nublado, mal a vi, enfrentei minha curiosidade do ponto onde estava na cozinha próximo à mesa, -sei tanto sobre tudo isso que demoraria. Vi mamãe entrar atropelada de pensamentos, feliz, estava com um vestido acinturado com relevos, azul escuro e branco, o cabelo arrumado, pintado de um ocre com desenhos, levava uma bolsa larga com alças compridas arredondadas, era de tecido, algo como astracã, talvez um chenile, preto e branco e parecia algo de tear. Sei que alguém correu atende-la pedindo em desembaraço que eu ficasse onde estava porque mamãe estava cansada. Não me pareceu, antes orgulhosa. Estava com uma pulseira com pingente, sei porque passou por mim, e a caravana a seguiu que, ao invés de se dirigir ao quarto dela foi ao dos meninos. A avó estava com um vestido de bolinha, azul com um branco, mangas de 1/4, trazia um travesseiro com algo cobert...

Ao João, meu irmão

  Vinha da escola com o mapa me mostrava, insistia.  Tenho de você bastantes lembranças, aventuras de Carlos Magno, mapas de viagem de seus estudos na infância, e que eu tive por alma divina vontade, e percorrido. A morte de Benjamin, o que havia em Andorra, os vendedores de livros em carroças perto da Sorbone, do outro lado do Sena, e tantos traços percorridos em manchas de territórios que descobri, conheci em muitos cantos. Acho que sou um sujeito do tabuleiro, ainda sigo os caminhos do cavalo, a travessia do bispo e demais personagens. Sou lembrador de rotas mapeadas. Vejo os mundos por linhas e passagens demarcadas. Países, lugares, perdições. Tudo bem, por comparabilidade, em relação ao modo Ocidental é surpreendente. No entanto, o que chama mais à atenção é o surgimento de cidades-estado, devido à produção de bens e conseguinte desenvolvimento do comércio. A grande quantidade de placas de argila encontrada mostram bem que, em quase todas, a função da escrita relacionada ...

Falo dela, da jogada inesperada

  Eu não a achei bonita; essas pessoas têm uma feiúra estável, tipo côro em marcha. Venceram, tudo bem, o paredão leva porrada e é mais resistente. Tudo é combinado, materialização de esquema ou conluio. Os movimentos eram certos, precisos. Gente sem suor. A beleza devia ter ao menos mau cheiro, algum desafio ético-moral ou pensamento tipo gelo. Não sei se confio em algo sem desacordo. Depois, se afogam na fala, muita saliva. O movimento destoa da trama, não há impacto, parecem gripados . Escarrassem, fossem menos etiquetados. Como se diz no Brasil: foi bom ato começo. No fim, gostei quando caiu e continuou empurrando a bola com desespero. Havia algo de valor ali. A forma no chão, disforme. Vontade de vencer sem medo. A guerra dentro de si.  Há nisso o que a beleza indiferente contorna o horror, não é bonito. Era um heroísmo humano na falha, na queda e no genial passe com os pés desajeitados. Todos viram e vibraram. A outra veio e carimbou a bola. Errou, perderam, mas senti qu...

Futebol: O que nos deixa mal é o que nos deixa.

      Quanta gente podia estar ali e não está. O menino não se comporta de acordo com o grupo, e é posto fora, esquecido. Os melhores em campo podem ter excluídos os melhores que eles.  O que nos deixa mal é o que nos deixa. Verdade, todo brasileiro é técnico de nascença, mas como temos dúvidas de qualquer brasileiro, aprendemos isso com a antropofagia que o poeta Oswald de Andrade ensinou, devoramos toda a beleza, comemos a criatividade de qualquer um, batemos na rua em professor, e todo aquele que puser suas manguinhas de fora, leva paulada para lembrar a gente que somos o bicho a ser morto no frigorífico da colonização. E o pior, pior é ser decolonial sem saber patavina das línguas autóctones, das variantes variáveis da nossa cultura, de toda idiossincrasia que faz o movimento que aponta que uma ação virou filosofia. Dá para olhar novamente como estão seguindo a regra de pseudo-conceitos, falsas moralidades, de deveres a serem cumpridos, podemos perceber o co...