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Saibam todos

  Caros amigos, os de ontem e os de amanhã. Amigos de hoje estão em minha morada. Posso explicar e isso é puro acaso. E não há quem conheça esta sorte, o racionalizado e também o impensado. No meio disso o fortuito, a fortuna ética do possível. Meus desejos foram e estão realizados, e o depois da realização deles, aproveitar as horas sem tempo. Sou feliz em ter pouco, ter vivido e em viver intensamente, de ter pessoas como você por perto. Amei ser omitido, enganado e ferido, e mais de desconhecido; muito amado. Pretensões, não tenho; brinco com os segredos das palavras, das formas, onde uma língua dorme e depois desperta, a tinta que escorre e os meus cômicos desperdícios com instrumentos. Acho estranho o grassado vil do mal. Nem sinto outra coisa dos maus, das invejas destocadas e tropeçadas, e se vejo a grossa insanidade passar corro para dentro de minha loucura, temo os certos, a gente moralizada e rasteira cheias da falta brilhante dos diamantes, e vou sem ir, pouco necessito d...

Bétis

  Eu jogava bétis. A gente apostava na saliva na madeira, selava. Fui bom jogador de arremate. Bolinhas de gudes, figurinhas, tralhas. Os jogadores aproveitavam qualquer falha. Nunca soube que um parceiro de um time podia estar combinado para perder e depois dividir o prêmio. Seria ridículo. Fazer corpo mole, quebrar o significado da brincadeira e o sentido de sermos  atletas da diversão. A maioria das vezes não apostávamos coisa alguma. O brinquedo era sério e a rua um lugar republicano, a criança era muito maior que o carro. Agora se houve, como se ouve falar, quem enganou, que os cara, da bola, alguns deles , foram meio que levados no convite, a mudar de time, sair de um país, ganhar, até pode ser,  qualquer tipo prêmio para inibir arrependimento, tapinha nas costas, fotografia, eu sinto isso, o vazio das ruas. A certeza de atropelamento. Se fizeram isso, entregaram o time, a torcida e os amigos e todo mundo para levar para casa as nossas bolinhas de gude e figurinhas,...

É pior que sem-graça

  Estou achando que perdi o paladar e não ouço mais os gostos, essas coisas passam, esbarram o silêncio morno de um café feio. A manhã vem sem esperança, o peso, a cor e as vitaminas do caldo. Cansando, dançando e movendo esse chá de pó desconfiado, tinteiro sem pena; fere a voz de dentro. Isso é tão local. Às vezes aparece na pele a erupção de alguma lembrança,  a espuma espiral da torrefação e o ganido da moenda, um toco cego de porcelana carregada de sons, a sensação de pequena verdade comum. Esse treco finge ser o que não é, o pires raso é um palanque; “vamos tomar um cafezinho” dá medo, mal-estar. O caixa do negócio vem arrumado com pelo dourado, papéis escritos, formas bandidas, e se sabe da roupa nova, e que o de dentro é grotesco; e depois vou cuidar de esquecer, aceitar a porrada, cumprimentar a mesa com aquele chorume me olhando nas ventas. Riso cínico encostado à parede, tirando o time, escondendo a vingança, matando o pobre rabi, erguendo no sovaco os maus pensamen...

Torrar o tento

  Eu havia lhe dito Papai a rezar que ainda estava na forma ao leite Mas isso demora! E mamãe fazia aziaga com tormento Descasque as dúzias Vendiam assim Que coisa! Ela joga: banana no cuque que é bom  Saía risadas, espalhava ramas delas pelo chão E papai tomava a briasca  Montando a peixaria: bacalhau quer alhos! E riam no enfrentamento desses E se foram aos fornos E deixaram tais lembranças

Fui alegre que nem acredito-me

  Sou outro. Hoje, um monstro feio, enojado com a existência. Fui ao mercado Aprendi não mais ser eu mesmo, alegre, e estabanado. Perguntei com pinças nas palavras se estava triste Aquela carinha de dor olhou-me a quase não dizer “A vida, as feias experiências me fizeram assim. Tenho essa cara sempre.” Num bonito acento carregado deu um riso entristecido” “É assim.” E era o que é. Perguntei com máscara cirúrgica de onde veio. “Bahia.” Muito quente, dava-se para ver as ações reconhecidas nos rios que entram no mar com as forças olorosas da legalidade. Fiquei ainda mais passado, parvo. Um mundo todo alegre: a seriedade imponente, orgulhosa, de uma beleza silenciosa, e a sensação de invasão em um mundo em que todas as diferenças são iguais. Alguém pode chegar e chegará para pôr ordem a qualquer ato desagradável de misericórdia. Queria que viessem todos, haveria uma quietude alegre e elegante de uma honra que obedecesse o ambiente. Seriam vizinhos. Poderia ler. Antes de carregar os man...

Chove

Choveu e as águas dormiram Cantilena da descida Poças sujas, doces, luminescentes Foram nuvens Agora borbulham aglutinadas, sempre partem Reflexo do que foram Arrastam-se pelos canais, lavam as valas imundas, e são caudalosos rios Esgotos planejados Esticadas em sonhos, dançam nos excrementos, vaporosas, gélidas, congeladas Serão neblinas, o rocio a se erguer, luzes de orvalho, garoa, temporais Oceanos envelhecidos, renovados Caem agora suavemente O razo tropel das profundezas

À chegada do bebê

  À Mirian, minha irmã. Lembrança de meus três anos. Eu me lembro de hoje, o dia que foi ontem. Você chegou, quase essa hora. O tempo nublado, mal a vi, enfrentei minha curiosidade do ponto onde estava na cozinha próximo à mesa, -sei tanto sobre tudo isso que demoraria. Vi mamãe entrar atropelada de pensamentos, feliz, estava com um vestido acinturado com relevos, azul escuro e branco, o cabelo arrumado, pintado de um ocre com desenhos, levava uma bolsa larga com alças compridas arredondadas, era de tecido, algo como astracã, talvez um chenile, preto e branco e parecia algo de tear. Sei que alguém correu atende-la pedindo em desembaraço que eu ficasse onde estava porque mamãe estava cansada. Não me pareceu, antes orgulhosa. Estava com uma pulseira com pingente, sei porque passou por mim, e a caravana a seguiu que, ao invés de se dirigir ao quarto dela foi ao dos meninos. A avó estava com um vestido de bolinha, azul com um branco, mangas de 1/4, trazia um travesseiro com algo cobert...