Falo dela, da jogada inesperada

 




Eu não a achei bonita; essas pessoas têm uma feiúra estável, tipo côro em marcha. Venceram, tudo bem, o paredão leva porrada e é mais resistente. Tudo é combinado, materialização de esquema ou conluio. Os movimentos eram certos, precisos. Gente sem suor.

A beleza devia ter ao menos mau cheiro, algum desafio ético-moral ou pensamento tipo gelo. Não sei se confio em algo sem desacordo. Depois, se afogam na fala, muita saliva. O movimento destoa da trama, não há impacto, parecem gripados . Escarrassem, fossem menos etiquetados. Como se diz no Brasil: foi bom ato começo.

No fim, gostei quando caiu e continuou empurrando a bola com desespero. Havia algo de valor ali. A forma no chão, disforme. Vontade de vencer sem medo. A guerra dentro de si. 

Há nisso o que a beleza indiferente contorna o horror, não é bonito. Era um heroísmo humano na falha, na queda e no genial passe com os pés desajeitados. Todos viram e vibraram. A outra veio e carimbou a bola. Errou, perderam, mas senti que havia um time, um grupo que lutava pra valer. De um certo modo, venceram a nervura da ordem, o equilíbrio burocrático que possuem os individualistas.

Então, o jogo era o corpo jogado do que corpos obedientes, submetidos ao estratégico. 

Ninguém se interessava pela pessoa, a coisa falante. Queriam e querem a aniquilação da estrutura, da corporeidade gentil e afetiva.

O monstro deve surgir, um erro e a reação jamais compreendida. Inteligência estática que serve padrões. Giro, rodeio, mudança da jogada, e o drible esticado para o desarme, invenção, e porrada.

A beleza tem disso: desproporcionalidade. Sabe, fica na memória. Ninguém acredita como o lance aconteceu. Pode estar registrado. Mas no ato, no pavor do engano, naquele momento a tinta faz a arte. 

E desse modo estranho, o correto chato se torna o correto imprescindível, a expressão conjunta da confiança na configuração da transição, e o choque que se eleva,  e transforma a receita em um gol inimaginável, nunca sonhado ou antevisto.

Perderam porque foram a vida em movimento, porque no afã de seguir à frente, adiantaram a marcação e abandonaram a retaguarda.

Talvez, pessoas se desmarcam, e se fossem mais cretinas, houvesse nelas o desejo de quebrar linhas ao mesmo tempo de erguer paliçadas teriam ficado feias na foto, amarrotadas, sujas e ganhassem.

Fariam, então, um bombardeio que destruiria a ordem protegida e cadenciada através da beleza sem-fim do imprevisto inacreditável.

No salão, além de se conhecer a base integral dos fundamentos no domínio, também é necessário a telepatia, a magia na criação da jogada. Pode ser forte, grosseira e destemida, mas a intuição, a inteligência contorna a bola prevendo o momento do chute.

E aí vai, deslocar a meta, tirar do goleiro a oportunidade de defesa, e pensar rápido e com suavidade a direção da bola. Tudo de uma vez, esquiar no concreto, suavizar o chão com os guinchados atordoantes, quase invisíveis no movimento da bola. Apontar a saída para que a companheira assuma o percurso da bola com responsabilidade, isto é sem desistir da certeza.

A beleza não está nas pessoas, mas no ato impensável de se realizar o gol com a potência integral de mente e corpo na coreografia,e no fora do lugar na distopia que suplanta o esperado, do óbvio.

Usar a quadra, conhecer o território das possibilidades. Fundo e frente, os meandros do meio, as diagonais, a frente e as esquinas construindo miras, perspectivas de ataque bem como de defesa.

As moralidades, as idiossincrasias definidas por uma cultura do em-si-mesmo faz da cancha um lugar de festas, e nisso se perde a festividade que é a gloriosa execução expressa da marca pessoal, de ser agente da finalização, de se realizar o gol. Não qualquer gol, mas um golaço.

Relaxar na tensão, nunca desistir e ter fôlego para se manter resiliente.

E não se trata de conquista ou de colonização, mas de acerto de contas, resolver o problema nas quatro linhas, pé no chão e coração passarinho, a subir alto e cantar o gol.

Uma jogadora assim, ninguém vê, ninguém entende fora do esporte, ela é o grupo criativo e vencedor. Um só e todos de uma vez.

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