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Mostrando entradas de septiembre, 2022

Para Karla Selide, com amor

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    Pego da lousa para riscar em giz o que não digo, envio à ti por convulsão de últimos instantes, que não leia ou se o saiba, possa saltar o que está escrito e aproveitar esse amontoado que ficará na memória como sem-sentido. Mas insisto que chegue aos teus olhos por esse tipo de correio porque do outro, jamais teria em mãos qualquer materialidade do escrito,  infelizmente abrem, mexem, e podem mudar o significado. Escrevo na sílica, nessa areia despejada, feita de aproveitamento. Nem é escrita senão porrada. Mas triste suavidade que nos fere.      Karla Selide, aqui encontrará o que não foi escrito, eu me anteponho a qualquer entendimento que sei, incerto. Saberá por outros o que de minha retraçada linhas quase falo. Verá que nem desculpo e também nem aponto o que sei de ti. Como um pastel que se busca mais o conteúdo e se pensa em travesseiro, entende? Claro que não. É como uma nova teoria que começa sem fundamento e se vai segurando nos postes s...

Debaixo da saia do café

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     Naquele dia, antes da geada cortar à tesoura os brotos, o Geno, um homem da cor do leite, (se fazia vez outra de bombeiro levando água para os camaradas), lombeou uma caixa com o serviço. Sentou meio disfarçado, ajeitou o chapéu atolado, fez um riso de sol na cara, acendeu a bituca, raspou a mecha, e, em seguida tirou os badulaque daquilo. Acertou um nível e pôs fogo, aquecendo os mandruvás, rasgando o pão, deixando a fumaça baixa para só levar dali o gosto.      Ele não combinava, aparecia na sombra, mesmo quando tentava se esconder do Boiadeiro, dizia ter feito o trabalho. Era bom de canga, taquara dura na fala, espinhento e mexia bem no trem da fornalha, fazia a comida, pendurava na cara da fome a broa e o chouriço. Ninguém chegava. Ele se atinha no que era. Batia os ferros, a turma vinha marchando de boi, ataviando como a vaca que leva a porteira de mansinho. E antes da oferenda, olhavam em volta, uma toalha de saca esperava, e cada deles se limpav...

Nascimento em casa

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        Eu estava para nascer naquele dia de chuva mansa. Não se tinha tempo para correr as coisas do chão e deixar mamãe deitada no chão frio, andar de manso buscando com uma lamparina um técnico do corpo que pudesse ajudar, nem gritar para a vizinha, Dona Luiza Mastereke com seu rebobinar de carne, olhar de soslaio de uma desconfiança nítida, por ser parteira, e ter uma casa de ensino para gente que vinha de onde se perdeu as pernas, então se arrasta. Levado à única biblioteca da região, posta apoiada sobre a Larousse, os braços num Quintal e outro no tal Camões, as dobras do joelho na coleção de latim, e a cabeça apoiada num imenso rolo de tecido do Deuteronômio escrito com letras de fivela de uma língua esquecida enquanto ela chega, pede água quente, bacia, panos, acho que cadarços, tesouras, álcool, não sei mais o que, bandagem para umbigo, gilete, e depunham nela um volume alemão de ciências naturais para ajudar no empurro das ondas que fazia nervosa, chor...

Carta de espera

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     A gente cansa de segurar o poste, a luz apaga quando mais de longe, desaparece. A noite se estica, dorme.  Então, espero, espero, áspero quieto de esperar, esperar. Quero ir para a praia, para o campo, para um sítio longe, descer a ripa na vida e mudar a cara do tempo.  Tenho terrível bom-humor, crenças adventícias, penso alegremente que tudo de bom acontece e acontecerá por tudo. Um tanto, não muito, ando de copo cheio com essa doença que vem matando com mais força.    Escrevo sempre, leio sempre, canto, ouço música, toco meus instrumentos e me arrependo tanto, tanto, um arrependimento que matasse, algo assim que bate, me arrependo de não fazer nada. No fim, que é jeito de início vou voando a vida, pés arrastados no chão das boas certezas.      Ontem mesmo soprei flauta, machuquei desejos. Corri o quintal com os bichos. Fui prender os galhos do limoeiro, e desisti por esquecimento. Andei na rede com um livro entortado, fiz um alime...

O ritmo da história nas palavras e emoções

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     Pego da tinta que já está posta, dos bytes que se revelam sobre a pedra, essa sílica renomeada, apenas para plantar lembranças, para cultivar a terra de esperanças, para dormir sobre linhas, encaminhar formas que se desconectam por intermédio de minhas poucas certezas. Pára treme na val, até que desce o rio, com boas vontades de reencontro.      Morte da sereia, liberdade de Ulisses que não ouve sereias, nem imagina que a Esfinge bebe refrigerante. Que borbulha contra sensos, até porque questiona, advinha quando pergunta, indica quando se pronuncia. Olha, escrevi para você, estava com o senso ibero de ter saudades, e tive, agora não mais, no ato de pensar, não mais, da escrita que segue, que morre ao seguir e é despertada como que nunca houvesse morrido, que se vive.      Pensei em te dizer sobre esse arranjo sintático que as verdades morrem no significado, que precisamos nos contrair o músculo todo para saltarmos acima dos abismos da ab...

Foi ontem, hoje

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                                              Hoje foi ontem, memória debatida.           Algo permanece no que esvanece. Amanhã direi o que sabe. Sabe que digo. Na lata em seu grito a despencar do carrossel da rua vazia em um tarde sem lustro. Direi repetidamente com o seu baque, quanto está a quebrar o silencio mortal do que se sabe. E não mentirei à meias verdades.           Direi do recomeço. Correrei a transbordar esse cheio desvalido.           O início que não chega, começa em um ir retinido.           Nesse fim desde começo vai à metade do infindável escorregadiço. Coisa de vento a querer livrar-se de si, - e morre afogado no ar. E empurra, a faz    enlouquecida, rua abaixo.           E ao meio, tantas g...