Carta de espera


 

  A gente cansa de segurar o poste, a luz apaga quando mais de longe, desaparece. A noite se estica, dorme. Então, espero, espero, áspero quieto de esperar, esperar. Quero ir para a praia, para o campo, para um sítio longe, descer a ripa na vida e mudar a cara do tempo.

 Tenho terrível bom-humor, crenças adventícias, penso alegremente que tudo de bom acontece e acontecerá por tudo. Um tanto, não muito, ando de copo cheio com essa doença que vem matando com mais força.
  Escrevo sempre, leio sempre, canto, ouço música, toco meus instrumentos e me arrependo tanto, tanto, um arrependimento que matasse, algo assim que bate, me arrependo de não fazer nada. No fim, que é jeito de início vou voando a vida, pés arrastados no chão das boas certezas.
    Ontem mesmo soprei flauta, machuquei desejos. Corri o quintal com os bichos. Fui prender os galhos do limoeiro, e desisti por esquecimento. Andei na rede com um livro entortado, fiz um alimento. Juntei a sujeira, joguei fora alguma besteira. E logo que raiou a noite de estrelas, digo assim, assisti canções, piano, e um pouco de coisas de fora.
    Olhei os perigos, desviei os pensamentos, fiz de tudo para cuidar e arrumar a entrada de ar, o frio que apareceu sem permissão, e tarde passada das horas, deitei para ouvir histórias, para descansar a letra das imagens duras que a tela faz aparecer.
    E hoje estou assim, ando a rir. Não sei que há comigo, esse negócio de ser feliz me deixa estranho, sinto que perdi o choro. Bobagem, sabe bem, apenas aceito viver sem tristeza.
Logo vem o escuro de pouca lua, e fico na espera de iluminar.

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