Carta a Lancio

 






    Prezado Lancio, venho por meio desta propor um sinal de pagamento por nossa amizade. Quantas vezes me dedurou no trabalho quando me afastava por urgência para cuidar da família necessitada de meu apoio, outras tantas que fingiu não me ver por estar acompanhado de alguns desconhecidos importantes, roubou meu discurso e o apimentou para o lazer de algum ignorantão da hélice - nunca chamo de helite.

    Tomou o carro emprestado e me devolveu sem uma gota de combustível, pediu desculpas a Adeliane e deixou os filhos para ela cuidar enquanto embarcava para um passeio na casa de um farmacêutico ou veterinário de seus bichos. 

    Arruinou o jardim da casa da praia jogando futebol. Passou a mim ao menos cinco ou mais, acho que mais, cheques sem-fundos, teve a audácia de trazer a Rona e a mãe dela, sua digníssima sogra para vir se banhar na piscina como seu eu, euzinho, nao existisse, abriu a geladeira e esbagaçou tudo que havia como que por um acaso, desvalida de seu notório descompromisso com minha família.

    Levou-me ao Chicarron para o jantar, chegamos e estava toda a sua família, acho até que algum vizinho, e todos saíram depois do comes e bebes, e você foi ao banheiro e sumiu pela descarga deixando a conta. Outras estapafúrdias deslocadas ações: levou emprestado o jogo de xadrez do meu velho, feito à unha peça por peça, e me devolveu falando a torre; foi no aniversário do Nitto e não levou um presentinho para a criança, que não se sabe porque razão, te adora; me convidou para jantar em sua casa deixando um recado no portão que teve de sair com urgência, a sua casa fica no fim do mundo em relação à minha, bastava telefonar.

    Fora isso escreve meu nome errado em memorandos importantes, conta mentiras ao porteiro, e ele acredita que sou ladrão.

    A minha proposta é simples, para pagar essas e outras muitas dívidas morais, éticas, de bom senso, peço que desapareça, 

Repito: de-sa-pa-re-ça

Atenciosamente,

Devido   

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Charlie 


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