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Mostrando entradas de octubre, 2022

Carta a Lancio

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       Prezado Lancio, venho por meio desta propor um sinal de pagamento por nossa amizade. Quantas vezes me dedurou no trabalho quando me afastava por urgência para cuidar da família necessitada de meu apoio, outras tantas que fingiu não me ver por estar acompanhado de alguns desconhecidos importantes, roubou meu discurso e o apimentou para o lazer de algum ignorantão da hélice - nunca chamo de helite.      Tomou o carro emprestado e me devolveu sem uma gota de combustível, pediu desculpas a Adeliane e deixou os filhos para ela cuidar enquanto embarcava para um passeio na casa de um farmacêutico ou veterinário de seus bichos.       Arruinou o jardim da casa da praia jogando futebol. Passou a mim ao menos cinco ou mais, acho que mais, cheques sem-fundos, teve a audácia de trazer a Rona e a mãe dela, sua digníssima sogra para vir se banhar na piscina como seu eu, euzinho, nao existisse, abriu a geladeira e esbagaçou tudo qu...

Vitral

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  Entrando por esse líquido verde, estático de aparência, vejo a cadeira em que poucas vezes ele usou, talvez isso possa significar a utilidade mínima e desconfortante de uma vida que escolhe, muitas vezes aceita, deixa ser. Lembrar a insignificância, os elos deixados no chão, ainda que assim integram a corrente, a prisão moral que a ética das decisões tantas vezes destitui. Por essa camada pouco permeável, como que entrasse diminuto no musgo das reminiscências, está de forma quase imperceptível o aparador com a lata cilíndrica de Half and Half, o cachimbo cuidado, e o fumo que parece vir. A luz baça que vem pela janela, os sortilégios do desconhecido, o frio e a umidade tantas vezes fluida, o muco que certamente derrubei em choro sobre seus ombros, a promessa das dores futuras, a candidíase nas juntas a devorar o movimento, a torcer as mãos reumáticas. Esse catarro vivo é mais do clima do que das pessoas do entorno. Ainda que no entorno sempre haja pessoas inclementes. Eu não o ve...

Autorretrato

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(escultura de Maria Sara de Lima Dias)    O meu autorretrato que de mim não fiz, foi de gesso quelado no fogo gordo, azulado. Eu me exibia na praça da entrada de casa. Assombrava almas que vinham. Ouvi gritos socorridos, diziam: “parecia vivo!” Naquela época estive vivo. Quando os ladrões entraram, notei quê vasculharam os correios, separaram os impostos, e os mantiveram em ordem na caixa. Entraram e se depararam com o busto da cara que usei. Veio susto, o pânico tomado por terror e ódio. Estavam no poder, e me atingiram com as armas de violenta dignidade. Levaram as roupas, um cabo de luz, e as miudezas. Deixaram intactas as palavras; ficaram os volumes tal como ficam. E se foram carregados por coisas que não se movem. Permaneci ferido. Fantasma vivo que a vida levou. ####### Charlie

Meu amigo da elite

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     Escrevo para que lembre que o infinito é muito carregado do agora, e por amizade, essa minha indiscrição, o que digo nem passa por assombro, de tão universitário está o pensamento rimado. O esplendor da simplicidade, minha amiga, custa muito, tem o preço do enternecimento. E a vida passa, a vida engoma o nosso jaleco puído, e o desencanto, o trabalho duro que temos pela frente para esquecer o que o dia nos trouxe.       Depois que foi Apolo derrotado, se fez Helio, e também se apagou com a queda do Império Romano, ficou a imagem com os mitos da Hélade, o apagamento ainda se dá com as luzes mansas, das helinhas ou elites, espécie de diáfana luz que como um satélite esvoaçante gira  em torno de uma centralidade dourada, do sol luminoso materializado no ouro. Visitei um antigo amigo da infância pisada nos matos. Depois dos cumprimentos e dos comprimentos medidos dos braços, ele estacou à porta e, como se me puxasse para dentro do templ...

Fazenda Esperança

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     Esperança, a última que morre. E morre no abandono da bondade, do bem das certezas, morre feia, no escondido da maldade, triste e ferida pela estupidez. A morte mais triste é a última que se dá em qualquer carniceria, no matadouro do conhecimento e da cultura. Morre sem nada, no vazio do enchido, na caixa de pouco abrigo, morre sem castigo, que o ferimento maior, deixa a vida antes de campo limpo, antes do arado, antes de brotar na herdade a verdade. Digo isso, porque sei bem onde estou, agora morrido porque se foi o Menino.     Aqui em Esperança a gente vê um deserto plantado, o horizonte longe no abandono, um fiapo de arame, distante e perdido. Contava antes de pôr palavra, vinha matutando, buscando um quê de amor devido, queria não ter acontecido o que se deu. A falta de lápis não inventa papel. Por isso, por amizade, te escrevo, quando vier; venha. Quando chegar no fogo ponho lenha para aquecer a chaleira que faz  nuvens.      Deseja...

No fim, isso

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    Bem, o dia passou chutado ontem, e agora vai de manso para dentro da noite para nos trazer o amanhã. Cedo volta essa correria. E se vai mais um dia. Vejo esse filme, passa ao acaso. Às vezes entro nele como que por uma janela. Furtivo, meio que me escondo, sigo alguns trechos e volto. É novidade, parece tratar de perdas. Vidinhas sem ganhos. Para quem tem de vez em quando uma dor de cabeça ou se entedia com um livro, deve ser cômico. É engraçado a desgraça alheia. É possível que alguém leve os filhos para ver miseráveis pelas ruas, como a um zoológico.      Mas logo acabou essa parte, veio um silêncio de mesa e pratos, falas desconexas. Reunião na casa de quem morreu, piadas de cozinha, risos alheios. Eu não disse nada, aguardei que a onda vibrante de cacos fosse para fora. Sim, tomei uma bebida com corante e algum tipo de coisa efervescente. Eles se foram com os restos da noite e com alguma coisa a mais nos bolsos. Saí mais tarde, além da hora que divide a ...