Fazenda Esperança
Esperança, a última que morre. E morre no abandono da bondade, do bem das certezas, morre feia, no escondido da maldade, triste e ferida pela estupidez. A morte mais triste é a última que se dá em qualquer carniceria, no matadouro do conhecimento e da cultura. Morre sem nada, no vazio do enchido, na caixa de pouco abrigo, morre sem castigo, que o ferimento maior, deixa a vida antes de campo limpo, antes do arado, antes de brotar na herdade a verdade. Digo isso, porque sei bem onde estou, agora morrido porque se foi o Menino.
Aqui em Esperança a gente vê um deserto plantado, o horizonte longe no abandono, um fiapo de arame, distante e perdido. Contava antes de pôr palavra, vinha matutando, buscando um quê de amor devido, queria não ter acontecido o que se deu. A falta de lápis não inventa papel. Por isso, por amizade, te escrevo, quando vier; venha. Quando chegar no fogo ponho lenha para aquecer a chaleira que faz nuvens.
Desejava ter lhe falado mais cedo, mais não houve alvitre, a gente estava ainda no segundo andar. O pensamento deitado nas nuvens lá de cima. Lá de cima pensava em descer a palavra no rebenque com o que aconteceu. A gente morre cedo, essa raça sem bainha nas calças que marca o não-dito, rosna uma vontade no entremeio, verdade que não disse naquele momento, estava ajuntando idéias.
Agora que carpi aquele mundo e vim para este, eu que perdi tempo, venho lhe contar. Pode falar mal, bem nesse lugar, somente com pagamento à vista. Diga aí, que demorei mais um tanto, foi de menos, mas foi o tempo, cata qualquer voz do passado e arruma na língua, não sinto pena, o couro é mais fundo do que porta de entrada.
Não foi que morreu! Morreu. Mal sei se teremos algum rebento, quase não deixei junto da Senhora. Veio cansado da última briga com o Fosco do leiteiro Ramo. Ele me disse que o bicho andava corvino, catava buraco e se assentava na malha perto do Lei. Foi que não se andou. Deixou ir a vida.
A gente cuida, pensa que tudo fica para depois, que é nada. Vou te mostrar quando vier de volta, o tamanho do buraco onde o escondemos do Lei. Grande, tamanho da perda. Era soslaio no campo, de frente, quando chamado, dava de arisco se ninguém lhe metesse motivo, e cumpria numa virada só dos cornos. Mexeu, levou. E deixou a vida, fiquei cambaio das idéias, uma descrença arrastada na sola da botina.
Você sabe que não dava para carnear na incerteza do motivo. Não teria coragem de talhar o Menino.
O Ramo veio com um sei quê, dizendo na voz de calcanhar que deram erva-de-rato, aquele cafezinho, não digo e nem aponto, mas que deu aquele frio ligeiro na barriga, isso deu. Achei depois uns pensamentos melhores, arrumei, passei a cuidar. De tudo que possa dar errado, o certo é canjear a verdade, a que mais não se crê jogada ao vento. Erguer a peneira no alto, voltar no peso, garantir o bem. Foi o que fiz. Não ia dar gosto ao diabo, marmita na oficina, arguta a malha do fogo para construir o mal.
Não, fui na verdade, a que eu tinha naquele dia, fui nela, batia à porta, aguardei entrar. Verdade que me deu vontade de morrer na fantasia. Dizer que o outro não presta, que tem parte. Loucura, explicar literatura. Fiquei na sala da verdade, tomei um bom café, conversei sobre as mentiras que os atropelos da vida inventa, ergue a poeira - rimos tanto. E assim me fui, bolso cheio de vontade.
Se alguém tivesse envenenado o Menino, sabia bem, isso no fundo de rio de pedra gasta, teria sido eu mesmo.
Foi minha culpa não levá-lo para uma escola de valor e sentimento. Invés de instrução no chicote das notas boas, do comportamento amarrado, aquele látego sondando no ar um grito antes de cair como uma reguada na cabeça da criatura, teria algum exemplo.
Entendimento da leitura do campo, saberia melhor do capim, entenderia o cercado moral, tomaria na vontade, o fazer, viveria a vida com mais bondade. Não, por economia de significado, não lhe propus o melhor sentido de campear. O deixei desbragado, grosseiro, sem finura na língua. Virou um técnico bacharelado, especialista sem tento, viveiro de ignorancia.
Se o tivesse adocicado na cana do açúcar da compreensão, se eu fosse alguém melhor que soubesse cuidar do menino, não o arrastasse para o enxame das poucas bondades, se não lhe mostrasse apenas a troca da erva florida, lhe oferecesse ao invés de escola, educação. Não estaria morto, esse Menino dessas terra da Esperança. Tudo que poderia ter sido sem canga.
Onde tivesse ido não passaria a vergonha desconhecida, amassado nas crenças de ficar leve e subir para as nuvens, nos castelos da chuva, na invenção de outra vida. Seria mais o livro da lei comprida, esticada além do arame.
Agora bate na porta o Ramo, diz que o Fosco pode morar aqui um tempo, mas é um bicho de pouco entendimento, passou da hora, qualquer coisa parte em cima, não puxa o carro, atravessa porteira.
Melhor deixa, se tiver sorte, a Senhora que foi educada na leitura, tem discernimento. Ela sempre foi dupla, ela mesma e a promessa de cria, ela e um mundo que faz vir. Pode ser, que venha outra alma, pode ser que eu não fique teimoso, e possa dar de bem levar o bicho para uma vida menos comunitária, menos instrutiva e mais de sabedoria e valores, tenha no cerne o desejo da liberdade, de pasto livre e de conhecimento.
E sei lá que possa errar, fazer a maior tranqueira, mas que se eleve outra vez, e quanto for, a não ser apenas imenso e formoso, e ridículo no mugir à toa, vaidoso e estúpido caçando urna velha para enfiar as patas, cair no mangue da grosseria, e por fim morrer, comendo a roxa, metendo a boca na miudeza bonita, na erva-de-rato. Foi embora o touro, a coisa pequena o matou, culpa minha, e não do Acaso nem da Covardia, nem da Vingança, esses bichos ficam no potreiro da ignorância.
Por isso te conto que Senhora anda pesada. Parece que insiste, anda e não cansa, ela, tão bonita, segue além da erva do campo que mata. Vai lá Senhora, a nossa única Esperança.
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