Vitral
Entrando por esse líquido verde, estático de aparência, vejo a cadeira em que poucas vezes ele usou, talvez isso possa significar a utilidade mínima e desconfortante de uma vida que escolhe, muitas vezes aceita, deixa ser. Lembrar a insignificância, os elos deixados no chão, ainda que assim integram a corrente, a prisão moral que a ética das decisões tantas vezes destitui. Por essa camada pouco permeável, como que entrasse diminuto no musgo das reminiscências, está de forma quase imperceptível o aparador com a lata cilíndrica de Half and Half, o cachimbo cuidado, e o fumo que parece vir. A luz baça que vem pela janela, os sortilégios do desconhecido, o frio e a umidade tantas vezes fluida, o muco que certamente derrubei em choro sobre seus ombros, a promessa das dores futuras, a candidíase nas juntas a devorar o movimento, a torcer as mãos reumáticas. Esse catarro vivo é mais do clima do que das pessoas do entorno. Ainda que no entorno sempre haja pessoas inclementes.
Eu não o vejo. Mal lembro. Mas aí está o cheiro de conserva doce de cereja, algo de mel, e a pimenteira quente, o funcho de folhas quebradas em sua baforada. Ao lado, um pouco abaixo, feito um traço envernizado está esse nome que me escapa e retorna do que é aqui muito distante, C. Vigée, ou é Claudio ou Claude, ou é quem é. O nome, não do autor, de quem profetiza qualquer coisa, mas aquilo que está escrito na voz que ainda ouço. Talvez tenha mais a luta com a língua, de querer algo que desaparece quanto mais se atém.
Esse brilho fatual que surge do fim esverdeado e gelatinoso, parece treme, sentir o sujeito que era, o artista da fome que desaparece na massa de buxos que fazem meu atropelo, o labirinto de partida. É o meu poema de retorno quando inicia o fogo do inverno, como que pudesse a claridade de potes de água nos levar a dançar ao lado do abismo. O olor do fumo que sobe e impregna, a presença dele com sua tensa calma, o riso de surpresa a me descobrir ao seu lado.
Alguma bondade se mantém no vazio esverdeado que atravesso nessa melancolia solar, nesse canto vazio, a alegria sobre a terra no denso estático de um momento. O verde, como a erva do sábio, percorre o mundo no barco que o leva, o vento de retorno. E vejo esses detalhes, essas pequenas medidas que nada significam.
Esse vitral sem esperanças me leva a um gabinete, talvez à sala, e vejo as escritas, aquilo que foi nitidamente reposta no ambiente, ele não, foi levado com a fumaça, subiu ao teto, acho que por isso insisto em olhar por essa geléia, buscar sua aparição, evocar o motivo de estar aqui, no refúgio desses muros adornados, convivendo com a apostasia que finge abraçar, sem febre, sem dor.
Desejo que esteja bem, desejo muito que possa sobreviver a esse caos.

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