No fim, isso


 

  Bem, o dia passou chutado ontem, e agora vai de manso para dentro da noite para nos trazer o amanhã. Cedo volta essa correria. E se vai mais um dia. Vejo esse filme, passa ao acaso. Às vezes entro nele como que por uma janela. Furtivo, meio que me escondo, sigo alguns trechos e volto. É novidade, parece tratar de perdas. Vidinhas sem ganhos. Para quem tem de vez em quando uma dor de cabeça ou se entedia com um livro, deve ser cômico. É engraçado a desgraça alheia. É possível que alguém leve os filhos para ver miseráveis pelas ruas, como a um zoológico.

    Mas logo acabou essa parte, veio um silêncio de mesa e pratos, falas desconexas. Reunião na casa de quem morreu, piadas de cozinha, risos alheios. Eu não disse nada, aguardei que a onda vibrante de cacos fosse para fora. Sim, tomei uma bebida com corante e algum tipo de coisa efervescente. Eles se foram com os restos da noite e com alguma coisa a mais nos bolsos. Saí mais tarde, além da hora que divide a terra do mar. Eram gente de escritório, de algum lugar fechado, um subterrâneo. 

    Tive impressão disso. Falavam como ilhas. Mesmo ali, sem razões tinham a pretensão colonial de limitarem o estacionamento indicando as hierarquias.  Chefe de escala, plantonista do sistema, diretor de assinaturas, presidente da comissão de cãibras, e os temporários, esses não tinham carros, sem dúvida se limitavam a um desejo menor.

    Queriam seus nomes em um acrílico sobre a mesa. Ter uma mesa já era um reconhecimento dos capatazes do departamento de manutenção. Enquanto estveram por ali surgiam olhares aprofundados, alguns divididos em quatro parte por lâminas, davam atencão aos hierarquizados com camisa de botões, se viravam e remexiam nas cadeiras. Eram contidos, mãos apertadas que podiam a qualquer momento furar os olhos de quem estivesse à sua frente. Sabiam todos os convocados que estariam num bar ou restaurante menor. Entraram procurando onde despejar as obrigações, e encontraram cada um deles o lugar exato.

    À direita da chefia, um pouco à esquerda, de cara com o comando, na quina com facilidade à porta, do outro lado junto aos coquetéis, contra aos gelados e sobremesas, todos buscavam eleger algum conforto, esquecer que estavam sendo usados, cuspidos de maneira sádica. "Foi o melhor que consegui", disse o coordenador assistente da diretoria geral de negócios, sem perder a gosma sarcástica que se divertia equilibrando nos lábios. Fingiram muito bem um coleguismo responsável, logo vieram os sorteios. Os vencedores receberam cada qual alguma coisa decepcionante, uma piada cruelmente vompartilhada com ironias e decepção.

    Mas o tiso vence. Na saída se viraram em minha direção como que desconfiassem de que estava ali como espião, tinha um gravador, aparelhos debaixo das cadeiras, na lâmpada, é mais provável que além da curiosidade de serem um estrangeiro naquele lugar familiar, pudessem perder um tempinho tamborilando à mesa a fim de se safarem da obrigação de dar uma carona obrigatória ao mando ameaçador e ao mesmo tempo piedoso das chefias para que levassem cada qual um dos temporários para casa. E isso por uma exigente bondade justificada: não tinham carro.

    No fim, isso, o filme acabou desde o início. Era assim como agora, tanta coisa a dizer que se engasga na fala.

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Charlie 


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