Autorretrato
O meu autorretrato que de mim não fiz, foi de gesso quelado no fogo gordo, azulado. Eu me exibia na praça da entrada de casa. Assombrava almas que vinham. Ouvi gritos socorridos, diziam: “parecia vivo!” Naquela época estive vivo. Quando os ladrões entraram, notei quê vasculharam os correios, separaram os impostos, e os mantiveram em ordem na caixa. Entraram e se depararam com o busto da cara que usei. Veio susto, o pânico tomado por terror e ódio. Estavam no poder, e me atingiram com as armas de violenta dignidade. Levaram as roupas, um cabo de luz, e as miudezas. Deixaram intactas as palavras; ficaram os volumes tal como ficam. E se foram carregados por coisas que não se movem. Permaneci ferido. Fantasma vivo que a vida levou.
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