Meu amigo da elite
Escrevo para que lembre que o infinito é muito carregado do agora, e por amizade, essa minha indiscrição, o que digo nem passa por assombro, de tão universitário está o pensamento rimado. O esplendor da simplicidade, minha amiga, custa muito, tem o preço do enternecimento. E a vida passa, a vida engoma o nosso jaleco puído, e o desencanto, o trabalho duro que temos pela frente para esquecer o que o dia nos trouxe.
Depois que foi Apolo derrotado, se fez Helio, e também se apagou com a queda do Império Romano, ficou a imagem com os mitos da Hélade, o apagamento ainda se dá com as luzes mansas, das helinhas ou elites, espécie de diáfana luz que como um satélite esvoaçante gira em torno de uma centralidade dourada, do sol luminoso materializado no ouro. Visitei um antigo amigo da infância pisada nos matos. Depois dos cumprimentos e dos comprimentos medidos dos braços, ele estacou à porta e, como se me puxasse para dentro do templo apolíneo fez lembrar o vivido. Falava na segunda pessoa com uma pluralidade de enganos amáveis.
A segunda pessoa já coloca o vivente fora das proximidades, mas no plural despeja sobre nossas cabeças a bendição da sabedoria, do amor e da fraternidade, assim me senti, distante da roma antiga num olival, banhado por tantas certezas de um futuro que curaria as feridas do tempo. Um jarro com azeite de oliva apareceu, um dedo afundou na minha testa, a elite, representada por meu velho amigo me benzeu, e entrei sem precisar limpar os pés no capacho.
Sabeis que viemos da terra alta, onde conheceis bem, plantávamos pedra para nascer castelo. Conforme o tamanho da rocha que enterrávamos maior eram as muralhas, nasciam dos esforços que fazíamos - e mais leve ficava a vida. Vossos gostos eram leves, girava folhas de papel, perdia as horas conversando com as gentes do roçado, lembreis dos tempos, terra verde, depois de palha, a colheita. E pusemos as mãos nos minérios. Licenças ali, dali, pedidos disso e daquilo, e ganhamos um bom ouro já plantado, pegamos do fundo o que havia. Via que vossas vontades eram estendidas, a amplidão. Se direis que há passado esquecido, vereis quanto do visto é repetido, retocado em casa, na vida que viveis.
A riqueza que tivemos. Ainda está na casa imensa. A vos ver deitado na sala dupla, me diz. Parede laranja de um lado, azul da luz fosquinha de outro, parece o céu, o manto da santa, e no chão madeira de lei de verminado grosso e brilhante, roda-pé verde cristalizado, o teto rosado com prata e dourado, seis abajures de perna fina, espelho por quase todo lado, o plástico fechado no tapete que tanto desejeis o bem cuidado, a televisão no meio de um parador, crochê arrumado como cortina, a cadeira de balanço com crochê sozinha sobre o espaldar do estafado arrochado. tanta delicadeza, as maçanetas com feltro e veludo bordado, no sofá uma manta vermelha bem esticada e do outro almofadas com contas, outras de franjas coloridas, e de doce rosa encarniçado. Gosteis da paz que aqui sempre anuncia, vamos aos detalhes.
Jamais havia visto liquidificador amarelo canarinho, bem pintado, com flores e desenhos de onça e elefantes, e a primorosa batedeira de bolo enluvada com pano cosido à mão, pespontado com tufos de barbante, e tramas de tricô bem acertado. O fogão com uma linda toalha com desenhos de cartas de baralho, para lembrar que se põe fogo, que é perigo, que lembra o casino. Os aparelhos domésticos em uma vitrine, intocáveis. A geladeira de quatro portas está enterrada numa parede com pedras, e segura pela rebarba de aço iluminado, uma família de pinguins bem vestidos com estampas e até sombrinhas. A geladeira de frutas e a de frios, os congeladores com uma caminha delicada de rendas. Vede vós quanto sacrifício. Vedes quantas belezas que vieram de longe, isso não é daqui perto, veio da China, da China, meu caro.
Uma porta rústica com trincos pesados nos leva à adega, a escada desce em caracol de ferro com adornos e os corrimãos, lado a lado envolvidos em tecidos coloridos. Luz de adega de lamparinas a todo lado com lâmpadas. Caixas de papelão com o nome das caves de origem, caixotes escurecidos no fogo para dar impressão de passado, e pó de talco com caliça e finos fios de teia de aranha demonstram o cuidado com o tempo que ilustram. Notáveis quanta dificuldade tivemos para pôr esses fios finos aí, deveis pensar, não, nada, é um spray que compramos fora.
O setor de frisantes com algumas champanhas, vinhos claros, vinhos brancos maduros, outros de tom rosa, os licorosos e os adocicados nacionais muito bem plantados em nichos de pedra e cimento, depois os grossos, os pesados, os montanheses e os crioulos locais. Mostrais muitas raridades, disse-lhe. Com certa condescendência de antigos ricos que mantêm um paladar assumido, como escusas da riqueza e como garantia de reconhecimento me diz: Dizeis por bondade. Um bom homem a se expressar na segunda pessoa que é.
Várias lâmpadas penduradas de cristais foscos e outros envidraçados caem sobre o mármore de uma mesa de travertino com muitas cadeiras crochetadas de cores da terra, bordas de pássaros enliçados, e os acentos em matelassê em baixo relevo de coelhos e pavões. Todas fincadas no peso de ferros dobrados com guirlandas de latão. A toalha da mesa inteiramente bordada com altos e baixos de formas campos, flores, casas, que mal se imagina que haja um tema de paisagem, não fosse em tudo desenhos de pombas, e o Cristo crucificado ao centro, o corpo ferido esvaindo em sangue, e no ar a flutuar mansamente, a auréola santa ensina que a fé enriquece e tece o mundo inteiro. Para completar a imensidade dos cuidados, castiçais de falasha de sete, um de três, outro de uma vela apenas, central, banhado em ouro, o deus solitário. Cinzeiros, rapés, pratos antigos, cristais adornavam a mesa, aguardavam a próxima hecatombe. Esperareis, amigo, esperareis que vos convidarei ao assento desta mesa onde provareis o alimento sagrado, deixa o Natal chegar.
Para entrarmos para outra parte da casa, um corredor em nada diferente de hotéis, nos leva a abrigos, nichos arrumados com portas estofadas azuis para os meninos e rosas para as meninas, um espaço no meio, uma espécie de hall é a sala de cuidados com banheiras, chuveiros e ladrilhos pretos e brancos. Todo o ambiente é estofado com botões de sustentação dourados, uma mesa a uma janela para um jardim de rosas de papel, um trabalho de artesão que sabe o que faz. As camas acolchoadas com temas de gostos de heavy metal a princesas, e viajantes no tempo com marcianos de pelúcia, coelhos e infinidade de ursos de todas as cores imagináveis deixam a atmosfera doce em uma artificialidade pungente. Não vi a figura de bambi e de Mickey senão na saída.
O corredor se abre por uma palistrada de concreto, assim seguimos, entramos por uma passagem românica, o arco com um anjo-da-guarda, logo a seguir uma escada suave com desenhos do tipo efeito urbano da arte, Comics simbolizando a vida como um jogo, descemos ao subsolo, entramos na sala de jogos onde há duas cozinhas incrivelmente aparelhadas com panelas de todas as formas penduradas como modo de arranjo, umas ligadas às outras como forma de decoração, fornos à lenha, elétricos e a gás, pias esmaltadas com grifos em forma de patos, bandeiras de times de futebol nacionais e europeus, uma televisão imensa cobre meia-parede de fundo, cadeiras de cinema para amigos assistirem os melhores lances que nos levaram a finais e também a sete a zero mais um contra a Alemanha. Camisetas envidraçadas, com assinaturas até de famosos gandulas. Fotografias com os melhores jogadores. Depois mesas de pebolim, de ping-pong, de sinuca e de bilhar, parte do chão é de cimento com fundos de garrafa - que se iluminam também. Por verdes vós quanto se pode divertir com pouca coisa. Olha, se vísseis as alegrias que aqui tiveram, se as pudesse conter, ainda estaria a rir.
Sofás e sofanetes com os mesmos motivos de crochê com almofadas bordadas com temas da sala, muito colorido para da um ar de encantamento. Há uvas de plástico ao entorno de todas as salas, são várias. E há uma saleta com porta onde se joga baralho, pôquer e agora, como novidade, gamão. Tudo muito novo, tudo coberto e preservado, dificilmente se usa o ambiente, explica o amigo.
Voltamos por uma escadaria de mármore de três cores, corrimão com poucos enfeites, antes de subir um nicho com uma escultura em latão e cimento da Vênus com um chafariz colorido, águas acesas simbolizando o fogo do amor. Retomamos o caminho de volta, a parte oeste da casa, um ambiente motivado com austeridade, a biblioteca com quebra-luzes verde em uma infinidade de mesas de leitura. Púlpitos, um praticável para palestras e cursos, quadros verdes desses que se vê dobráveis, e ao lado uma papelaria com cartões, cadernetas, cadernos, apontadores para lápis, lapiseiras, e uma imensa coleção sob vitrina de canetas.
Alguns computadores cobertos, e estantes altíssimas. Há muitos livros na sala que chamam de descanso, não se pode tocar um porque estão todos envidraçados. Nas mesas há livros abertos, livros amontoados como se tivesse ali, não faz muito, alguns pesquisadores. O setor de livros raros é fechado, apenas se abre quando alguém se interessa em comprar algum. Nesse caso, me explica o amigo, uma bibliotecária é chamada para acompanhar.
Chaise Longues dispostas junto ao cortinado carimbado de várias cores com imagens de famosos escritores estrangeiros. Ele me explica a escolha feita por jovens da literatura com seus professores que fizeram ali uma visita: nós não temos prêmio Nobel, ainda - explica. Perfeito ornamento, lhe disse. Vós vistes melhor que nós, que ainda não tivemos sábios, rabis togados, vamos lá, façais algum esforço, numa dessa...
Saímos por uma porta transversal até o gramado e entramos em uma outra casa contígua, o setor de churrasco. Paelheiras à lenha, fogões à lenha, churrasqueiras de diferentes tamanhos com e sem ladrilhos, de tijolos refratários e de vidro, todas espelhadas com luzes internas, mesas redondas em um salão com ventiladores de teto e janelões de onde se vêem os potreiros e a casa dos cavalos, longe, muito longe no alto da serra totalmente verde.
O entorno é enfeitado com cadavéricos animais com olhos coloridos, presos à parede e pendurados, de todos os tamanhos, formas e raças, caprinos, suínos, bovinos e até um jaguar europeu, ou o último leão da montanha americano estava lá preso com parafusos. Muitos brasões dependurados, e uma imensa placa adornada está instalada em uma das paredes em forma de árvore. Mostra a genealogia da família e, com cores douradas, a posição da família de meu amigo no tempo. Vedes, estamos aqui. Sim, estávamos ali.
Todos os espetos, um espanto, possuem um trabalho familiar de tricô, crochê e bordados. Voltamos por outro caminho e chegamos à sala de banhos. A piscina oficial de um lado, a menor de outro, pequenos lava-pés com forma estilizadas de urso e de pato, todas são aquecidas e iluminadas, todas possuem cobertura e se aconchegam em um envidraçado. Saunas secas e úmidas, setor de massoterapia, setor de ginástica, sala de dança e de pilates, e o setor de bebidas frescas. Fomos a esse setor e bebemos refrescos, em seguida marchamos para o térreo novamente.
Percebeis junto ao quiosque das crianças, logo ao lado do parque infantil, vedes lá que temos tiro ao alvo, usamos carabinas, armas estrangeiras, temos uma variedade de escopetas, e essas Lancers umas dessas que explodem mesmo. Precisareis ajuntar vosso tempo para a distração, sabeis que a vida não é só trabalho. Vinde vós quando podeis, apreciareis nosso desejo de morte, morte ao estresse.
Desta vez ficamos em uma sala menor, a sala da despedida. Desejeis fumar? Fumos, jogos de xadrez, dama e outros, bebidas destiladas, licores em garrafas de bico de jaca, amarelas, vermelhas, com e sem adornos. Monte Cristo, outros cubanos espalhados em caixas de toda forma e tamanho. Uma coleção de cachimbos e fumos de nomes nunca pensados. Imaginar tudo isso por ser um produtor da educação, um membro de academias, um comendador da arte e da cultura, e um investidor na área da pobreza social. Era incrível.
O lugar possuía motivos de Nashville com fotos de cantores conhecidos e desconhecidos. Aceitaríeis alguma música de descanso? Ouvi as canções folk music americanas, canções populares locais em alto som, e logo me levantei e ele foi à porta, um homem surgiu de fraque, altíssimo e a abriu, o mordomo. Eu me despedi de meu amigo com um caloroso aperto de mão, não se abraça mais. Pega mal. Volteis quanto desejais, estarei aqui para receber-vos. Receber-voe-ei com alegria, bem sabeis. Eu me sentia muitos. Antes de sair vejo o capacho com o dizer sejais bem-vindo, e vou para o mundo com essas palavras, agradecido.
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