Foi ontem, hoje
Hoje foi ontem, memória debatida.
Algo permanece no que esvanece. Amanhã direi o que sabe. Sabe que digo. Na lata em seu grito a despencar do carrossel da rua vazia em um tarde sem lustro. Direi repetidamente com o seu baque, quanto está a quebrar o silencio mortal do que se sabe. E não mentirei à meias verdades.
Direi do recomeço. Correrei a transbordar esse cheio desvalido.
O início que não chega, começa em um ir retinido.
Nesse fim desde começo vai à metade do infindável escorregadiço. Coisa de vento a querer livrar-se de si, - e morre afogado no ar. E empurra, a faz enlouquecida, rua abaixo.
E ao meio, tantas guerras, conflitos de opostos lados dessa travessia.
Permanece o que sai de si. Sem perguntas porque as respostas não dormem.
Atmosfera que liça, amarra, solta, atiça.
A lata vê as paisagens, recantos de que somente o restrito estágio de seguir lhe proporcionou. Olha o céu, a terra, o enfado, desperdício desencantado que, como ela mesma, de um lado a outro não toma para si o todo.
Apenas tem de si mesma nostalgia de suas crenças, de ter ficado parada no abandono sujo das passagens.
O seu desvario de crer no horizonte como um conceito linear do quadrado. Atenta e aplicada ao que se ensina. Nesse devastar a vida enlatado, diz ser tão preferível a casa dos conceitos, a certezas mortas, ainda iluminadas, parecem veladas em interna procissão.
Melhor do que essa incomensurável dor, martírio de partir se debatendo empurrada ao vento, pensamento do tempo, grude estrondoso do espaço.
Essa metade feita de paradas, fragmentos, parábolas do partir, dialética pretensiosa de recair sobre si mesma, algo que é e nem alcança. Façanha teleológica do ser no espaço, levada no encaniçado vendaval que nem guia, mal derruba verdades dominadas, acostumadas, inominadas.
E por essa gritaria, que diz cantoria, ainda cuida de seu vazio completado, e também foca em sua posição e a perde no mover-se, no liberar-se e perder-se. Era ali, era lá, foi aqui, passou.
Dorme despertada, alma roliça.
Depois o grito sonoro rotativo do final em que é depositada à distancia da ar feito rugido, que parte em fuga brigando consigo mesmo.
Estatiza o seu estado. Está parada, mas freme, sente que a chegada inicia outra jornada. Todo seguir determinado, todo seguir calado. Estabiliza o que fica, permanece em ida. Essa potencia de tudo devolver, de engolir terras e mundos, engolir o sol, lua, e todas as tardes e manhãs.
A lata aguarda saber de sua entrada no mundo. A síntese do que é de si dominado, tomado, denominado, doado, dado, nomeado a esse pedaço fragmentado integralmente cogente em ser pedaço. E em ser do incongruente a constância de sua continuidade.
A latada, essa estrutura, direi amanhã, é outro início, outra lata viajada no delimitado estado, finalizada desde o princípio, mesmo antes de ser lata.
E o que que sou, mais essa pressão atmosférica, essa alma em ventania. Direi de tudo que se inicia, luta ao meio-dia, na meada fria da litania, que ao fim amanhece o dia.
E diria assim
Talvez o que se repete, o que constatamos como verdade, de fato se apresenta novamente, parece sequencial, pode ser não ser nada disso. O que pode ser? Que ontem, foi hoje. Que o agora carrega o passado, que tentamos segurar com as mãos, levara para um canto e conversar.
Olha passado, sei que é renitente, vem quase todo santo dia, mas, veja, eu preciso de um outro passado, de um que seja lá onde o passado mora e que possa ser amigo, um desses de passado que pudesse estar tostado, bem passado e ajudasse a dar outro sentido ao vivido, que todas as despedidas diárias que realizamos quando construímos passados pudessem se revelar melhores, mais alegres. Era assim, que tudo fosse transcorrer ao transcorrido, ao que foi, e trouxesse em sua volta e revolta alguma alegria.
Digo essas coisas por que sei que amanhã não terá esse agora, mas que parece certo a desilusão que foi ontem, hoje.
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