O ritmo da história nas palavras e emoções



 

   Pego da tinta que já está posta, dos bytes que se revelam sobre a pedra, essa sílica renomeada, apenas para plantar lembranças, para cultivar a terra de esperanças, para dormir sobre linhas, encaminhar formas que se desconectam por intermédio de minhas poucas certezas. Pára treme na val, até que desce o rio, com boas vontades de reencontro.

    Morte da sereia, liberdade de Ulisses que não ouve sereias, nem imagina que a Esfinge bebe refrigerante. Que borbulha contra sensos, até porque questiona, advinha quando pergunta, indica quando se pronuncia. Olha, escrevi para você, estava com o senso ibero de ter saudades, e tive, agora não mais, no ato de pensar, não mais, da escrita que segue, que morre ao seguir e é despertada como que nunca houvesse morrido, que se vive.

    Pensei em te dizer sobre esse arranjo sintático que as verdades morrem no significado, que precisamos nos contrair o músculo todo para saltarmos acima dos abismos da absolutidade. Saudades, mais que saudar, desejar saúde, de convivência que a fala promete, que cai de modo estúpido no dialogismo, na pele, e não na ranhura da madeira.

    Lembra que lhe disse que o arranjo da praça não perde o arranjo quando os caminhos, as buscas dos interesses imediatos do cotidiano faz com que se atravesse os canteiros. Não é o texto uma questão administrativa, de acertos. Mas de mudanças. Ao invés de ajustar os caminhos como faziam os europeus, nós temos mais força ibérica e latina de mudar integralmente a paisagem, e manter os traçados, os arranjos sem que ninguém possa pisar nas flores. É uma verdade sintática.
    E, de um jeito pessoal, como posso dizer o que diz o pragmatismo de Dewey, as formas, meu caro, as formas não se encontram, nesses termos, nos objetos catalogados de uma beleza artística. Podemos transformar o óbvio. Uma atitude prática, pode ser que seja demorada, ou incansável, mas não está no menu do bar do Stuart no sul do país, e nem se perdeu para sempre a placa alusiva ao poeta que parece inconformado na praça.
    Nada disso. O passo é sempre maior que a perna no sentido de recuperar o futuro do que amassar nas mãos o passado como uma lógica definitiva. Nada disso, eu estou a lhe dizer por essas poucas palavras cujo sentido não está na face da palavra. É o jeito da madeira, a fala que parece mais promessa do que cânone, dogma, ou referencial ao constitutivismo de uma arquitetura basal do cotidiano.
    Espero que esteja bem, que fique zangado outra vez, que se detenha sobre o selo que sobre o sobre vai para a sua coleção, mesmo que o envelope aberto por ninharias, que os segredos se abram, segue com afeto. Leia por desengano, sem se ater aos fatos, que sabemos não bastam a si mesmos. São sempre outros, hermenêuticos de viradas tangenciais sobre os limites da paisagem da qual fazemos parte. Receba meu abraço.
    Começo com o absurdo. Apenas para notar a minha displicência. Sempre soubemos que o ritmo é a história, o pensado que a linguagem no processo de sua estruturação enviesa, ou faz  por caminhos diretos, mantém-se aos  tortuosos, e nos guia a um fim possível. Está pronto o que pode ser dilacerado para tornar a ser ajustado em uma tênue costura por linha sutil, a quantidade de todas as valias, constâncias de suas fibras que se avolumam à nossa frente, e da qual nos embrenhamos. E que, por empenho aos sinais entre vazios e cheios, entre pontes e precipícios nos dedicamos a seguir, como que houvesse o caminho preclaro. Algo que nos prende e liberta, algo que não sabemos bem, um modo de fé, um não sei onde que se entrelaça.
    E seguimos, como que nossa marcha fosse apenas sintomática, quase que ligeira e calma sem preocupações com as dissonâncias, as vibrações, descendo e subindo os campos previstos, ou imaginados, transpostos ao tempo aristotélico que constrói decisões de salto e faz precipícios, emboscadas. Não sei quê de emboscada em que nos empenhamos livrar, e também permanecer porque os enganos, os mais fúteis parecem recantos, lugares de descansos, são atalaias das quais nos resignamos ou tomamos a decisão de visitar as distâncias, virar os horizontes, mesmo sabendo que ao rés de nossos pensamentos estão os traços, os sinais de seguimento.
    Se por empenho que lemos, também é a decisão de partida que leva no bojo do conhecimento alguma chegada, cada passo se completa no desequilíbrio, não de metas saltitantes, que por fim damos ao cabo, mas a incompletude. Sempre somos deixados, e também nos deixamos sem por onde, e poucas vezes temos dessa inteireza alguma visão de fundo, se nos acolhemos, ou se nos perdemos como que tudo que se integra fosse a dissolução.
    E ainda que nos resignemos aos modais do tempo, esse que parece definirmos, o ritmo vence a toda atrapalhada de alguma pulsação, que ora encontramos, outras fugimos. No poema, no mapa de signos postos, no plano, a coabitar as reminiscências do andar humanos pela história, assim estamos nesse encanto dissoluto, que é cerzido algumas vezes, e serve de pavimento, o fio fino estruturado disfarça, realiza o atalho para se passar para outra vereda, ou trilha protegida.
    Seja como for, Octavio Paz confirma que o ritmo é tão antigo quanto (sic) o pensar, antes da fala, antes do gesto, e, certamente se interpõem como a semântica que menos que a virtude de um proto-significado, é mais inferência ao que se refere, o balão de aniversário que escapuliu das mãos da criança que por algum tempo baila no ar. Já se viu que se busca por horas, e na foice de uma entrada mais drástica, encontrar algum saber, seja qualquer verdade.
    Sabemos que está ali, lá, aqui ou do outro lado as qualidades, todas as adjetivações, os pre-nominais onde se esconde o sujeito, o quem jogado sobre o significado, que só existe como integrado à completude da carne feita, do verbo.  A semântica faz a junção com outras vias, o mapa se complexifica, o poema sai do léxico ou da bagagem formativa do senso, e chega de um jeito estranho à caverna das imagens holográficas, evanescentes.
    Não dá para qualquer que seja, dessas luminescências, mesmo a mais repetida, fazer o convite para um passeio fora, um das-sein superlativo, carregar na lâmpada como fôssemos um Djinn. Nem Hegel, nem o próprio Heidegger, nem Kant, apenas Platão que faz desse cinéreo, o cinético desenrolar do pensamento, que apenas nos diz que esses fantasmas interpostos não podem sair, tornarem-se libertos, ir conosco ao café. Estou dizendo, isso de antes de qualquer inteireza possível, conceitual. Não dá para nos acompanhar, sentar à mesinha comum e beber um café, bater um papo. É inconstante, mutante.
    O que parece que temos nesse jogo intertextual que o ritmo nos leva é algo apenas, ante a toda categorização estruturalista essencial da linguagem, o enunciado enquanto seja fragmento do possível, isto é, de uma decisão em meio ao caos menos representativo ou menos acolhido ao que se refere o kantismo, o algoritmo das pretensões, que o significado-significado se alcancem. Vimos que Vygotsky nos mostra que o pensamento  feito de palavras, que o social cultural, o histórico da vida relacional e interacional se apropria de conceitos, pensa em bloco, problematiza de forma subjetiva, alcança ou dá o salto abstrato, que necessita do outro, mesmo esse outro reinventado do discurso. E, como se desse a zona de desenvolvimento proximal, o que nos encaminha, o que enuncia não nos abandona.
    O que se cristaliza no cansaço da mímesis platônica, na simulação que se apresenta, no simulacro de Baudrillard, a quem recorremos, a quem seja esse sujeito, se reporta a nós mesmos à nossa história que não é de claridade tranquila, pousada como um fogo de SanTelmo, o ritmo narra a história, a beber do rio sintático, e o semântico, na busca da reflexão, inopinadamente tergiversa sobre o óbvio, ou caímos na vala funda do mal-passo, do engano. O dialogismo de Bakhtin, como aproveitamento do formal dispara, o tempo todo a cavar significados, a dispersar dos pés enlameados os sentidos dispersos, que no entanto constroem o tecido lógico textual.
    Porém, o passeio que fazemos é sempre único, jamais seria possível como o estruturalismo prediga de realizarmos alguma releitura. Impossível retorno, toda leitura faz o ritmo a um dado momento, nunca novamente nem outra vez, somos quem pulsa, léxicos na captura do corrimão que nos ajuda, a ferramenta disponível de nossa história, e sempre embaraçados quando mais, quanto não haja a tapa afivelada em nossa garganta, a ideologia sistematizada, a teoria garantida que nos ponha freios, sempre ato ético, decisivo, e totalmente inicial, jamais final.
    Não é que se descubra de um dialogismo a contradição ou o surpreendente, que o certo nunca está, senão, certamente o certo de ser incerto. A dialética das formalidades que aborda e se exprime o antevisto tético, do que se trata, e de sua antítese que se conecta com o que pode o pensar ser encaminhado, a uma síntese, e não é disso que tratamos, Falamos do ritmo, da interposição do limite de cada ida, que exige sempre o começo e não recomeço, um partir que é sempre iniciar. Não está no ônibus a placa indicativa da última parada, ao lugar aonde se chega, e onde definitivamente se fecha o entendimento. Não está. E não é a regra gramática que ignora as partes complexas, históricas da língua como diz Saussure, nem é por essa via a etimologia, o retorno incansável sobre uma arqueologia de domínio que Foucault trata, ou de sua representatividade bastante.
    É o pensar no ritmo que é a história que construímos com nossa palavra-pensamento, as escalas ou níveis que se disjunta da fala, ou da coesão sintática da forma, parece mais que somos criadores da obra também, como mesmo Bakhtin nos lembra. No entanto, não se trata de outra história cavada por nós, dispensada da autoria ou da base fundante da experiência, vem de antes. A história da escrita que criamos é o salto qualitativo que ousamos dar, devido aos aportes de nossa vivência e não da existência meramente orgânica, vem da integridade do pulso em que as emoções também se encapsulam no pensar dinâmico.
    Porque não dá para recomeçar a pensar, e nem recomeçar a sentir no sentido stanislavskiano senão por aproveitamento da experiência. A mais antiga conotação do tempo ritmo, indissociáveis é o esforço que realizamos para o desequilíbrio, isto é, para o caminhar. E de outra maneira, somos mais promotores das contradições do que qualquer nuance dada de contradição medida, formatizada e formalizada. Como diz Octavio Paz, as palavras se desincorporam do ritmo. E no entanto, o tempo, a pulsação que é como comer o ar ao invés de respirar, fica estanque. Não pode, marchamos no nosso ritmado discurso, dentro do insólito cultural, e jamais temos de uma vez o todo desejado, um todo canhestro às partes que constituem o estudo linguístico. E voltamos ou recompomos o tempo-ritmo a uma rítmica que está por aí na vida cultural social, em nós, dentro do mesmo lugar cavernoso das boas intenções, ou do entendimento.
    A problemática é que não queremos, de maneira alguma voltar ao nós singular, queremos que a formalidade seja ela mesma, e ao mesmo tempo descendente da linguagem, o etiquetário do bom-senso. A linguagem nunca se torna a palavra no sentido mais proeminente de ser quem é, senão sendo palavra-pensamento, e não substancialmente significada, senão emotivamente também inteirada. A palavra que dança no espaço de nossa carnavalização interior também está fora, o pensamento não está apenas dentro.
    E nem é um ir fora e voltar alimentado, uma tecnificação pulsante, senão a ubiquidade do mundo compressivo na singularidade. O ritmo é a história, não em pedaços, mas na inteireza da decisão de entrar por seus traçados dos quais fazemos caminho, um caminho que criamos obedecendo o léxico dos sinais, compreendendo os desníveis, inventando o caminhar. E não é o que Machado diz, que é o andar que faz definitivamente o caminhante, a prévia existência do homem e de seu pensar é o que antecipa, é o próprio caminho, a prática do caminhar já é a história humana.
    Criamos a história no mesmo momento em que nos propomos a não permanecer no mesmo território de nossas certezas, e sim, ante ao previsível do tropeço possamos nos elevar ao pensar-emotivo, a emoção do pensar. A história escrita não advinha a história que tangenciamos, como que o ar estivesse impregnado de minúsculos sentidos de mundo, e como diz Bachelard, ao nos apropriarmos do ato poético, que nos faz sonhar, mas que de muitas formas do que somos em nós impregnados nos faz amar o devaneio.
    A nossa antiguidade no planeta não nos dá chancela alguma sobre o que prevemos, percebemos, a nossa roupa não nos garante que não estejamos aos olhos deste mundo, se não estamos descobertos. O texto como tessitura, fica no tear das edições, a leitura nos faz mais que escrever, inscrever no espaço no tempo das emoções que pensam, o que imaginamos existir, porque assim possuem ao menos, momentâneos horizontes, além das palavras,  sou também feito de paisagens, sou feito de ritmo.
#######
Charlie 



Comentarios

  1. A constância, o entendimento, é assim que sabemos e definimos o que se é escrito e o que vivemos. Vivenciar também é ler, é falar, por quê não também calar! Bom saber mais de você, Pedro. Afinal, o texto é seu, né Pedro.

    ResponderEliminar
    Respuestas
    1. É bem isso. Pensar e escrever machuca significados. Parece ato leitor, desses quem somos cuidam quanto podem, e levam como podem, os sentidos. Abraços

      Eliminar

Publicar un comentario

Entradas populares de este blog

Fui alegre que nem acredito-me

Carta a Lancio

Chove