Nascimento em casa
Eu estava para nascer naquele dia de chuva mansa. Não se tinha tempo para correr as coisas do chão e deixar mamãe deitada no chão frio, andar de manso buscando com uma lamparina um técnico do corpo que pudesse ajudar, nem gritar para a vizinha, Dona Luiza Mastereke com seu rebobinar de carne, olhar de soslaio de uma desconfiança nítida, por ser parteira, e ter uma casa de ensino para gente que vinha de onde se perdeu as pernas, então se arrasta. Levado à única biblioteca da região, posta apoiada sobre a Larousse, os braços num Quintal e outro no tal Camões, as dobras do joelho na coleção de latim, e a cabeça apoiada num imenso rolo de tecido do Deuteronômio escrito com letras de fivela de uma língua esquecida enquanto ela chega, pede água quente, bacia, panos, acho que cadarços, tesouras, álcool, não sei mais o que, bandagem para umbigo, gilete, e depunham nela um volume alemão de ciências naturais para ajudar no empurro das ondas que fazia nervosa, chorava e gritava para Lureke, queria uma cana doce na boca para apertar, um torniquete de língua, a leitura de um poema, qualquer coisa que a ferisse menos. Enquanto a dona do parto se mexia arredondando o lugar, papai que a conhecia bem, buscava iodo, buscava não se desesperar, corria fora, entrava no carro em meio ao canivete que descia do céu, ligava na manivela aquele cinquenta e um, ia buscar um rabi que vivia escondido, fugitivo das milicias azuis, falava como se desse tiro, era manso na barba espinhenta, um riso de tristeza do outro mundo de terno, atravessou tudo para ficar quieto e fiar uns palavrórios que ninguém entendia, o chamavam de Querbutes entre desconhecidos, a ele não, diziam diferente, o Jacuzinho, um homem grande.
Ele parou feito porta, empurrou a Lureke, disse à minha mãe calar a boca, e se encostou junto às mata juntas batendo a cabeça, depois desceu os olhos e acenou a papai que estava bem, e se foi para nunca mais ver, se amarrou com uma tal goiana Jandira e carpiu desse mundo. E vim nesse mundo caindo sobre o Machado, levado nas letras de um proibido, embrulhado no Guesa Errante, levando sangue da boca no soluço. E se sabe que a ignorância também é letrada, nasce na promessa da palavra e morre no desenho da capa, cai da estante e é esmagado por uma quantidade vertical de nadas, no peso filetado de árvores. Não leia meu filho, não viu seu tio, aquele pavio? Ninguém entendia ele, morreu pisado, no assovio, na marcha lenta dessas almas que arrastam os seus cadáveres, não leia que morre, feche isso, vai carpir uma data, esquece.
Tive sorte, ou tive azar, era decaído como um velho marcador de livro que não encontra a página. A gente ia pescar, papai me enfiava um chapéu manchado, dizia que era para me esconder das pessoas crentes da vida além e das que tinha certeza do agora. Fui salvo por mamãe, sei ler manual, ser ler cartilha e placas, e me formei doutor, tenho um carro que não precisa de manivela, nem de leitura.
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