Debaixo da saia do café
Naquele dia, antes da geada cortar à tesoura os brotos, o Geno, um homem da cor do leite, (se fazia vez outra de bombeiro levando água para os camaradas), lombeou uma caixa com o serviço. Sentou meio disfarçado, ajeitou o chapéu atolado, fez um riso de sol na cara, acendeu a bituca, raspou a mecha, e, em seguida tirou os badulaque daquilo. Acertou um nível e pôs fogo, aquecendo os mandruvás, rasgando o pão, deixando a fumaça baixa para só levar dali o gosto.
Ele não combinava, aparecia na sombra, mesmo quando tentava se esconder do Boiadeiro, dizia ter feito o trabalho. Era bom de canga, taquara dura na fala, espinhento e mexia bem no trem da fornalha, fazia a comida, pendurava na cara da fome a broa e o chouriço. Ninguém chegava. Ele se atinha no que era. Batia os ferros, a turma vinha marchando de boi, ataviando como a vaca que leva a porteira de mansinho. E antes da oferenda, olhavam em volta, uma toalha de saca esperava, e cada deles se limpava na bacia.
Os pratinhos de ágata eram cheios, uma colher ou garfo, uma madeira com curva de fundo, o que desse, desapareciam por debaixo da plantação. Nem meia hora, o Geno se erguia batalhando os guizos, e descia para a casa. Mais tarde trazia água, umas frutas do inverno, meias palavras, cigarrinho nos dentes, outras trazia o amolador de broca seca quando puxava o carrinho o Mirtão, um cavalo metido, ou o rebolo com a pedra polida, girava a manivela, as gentes vinham, ajeitavam as ferramentas. Tinha mania de trazer umas sacas de linhagem para se encostar e descascar qualquer coisa.
As quatro, esse transparente andava de fantasma, uma nuvem estranha que batia, e o acompanhava até a mangueira, entrava no curral da Lanta, a gir-holanda, e amarrava o cinto no banquinho, tirava o leite, tomava colostro das vaquinhas prenhas, coisa de sangue, e trazia para cima. Limpava tudo, raspava, ajuntava nos carrinhos e trazia para o jardim do fundo ou punha na carroça e carregava mais perto do cafezal. Depois, entre seis e pouco e mais um tanto, arreava o Mirtão e seguia para a vila com o leite. Vendia, lavava o bicho, limpava a carroça e a leiteira que ficava de boca-baixo, separava verduras, uma frutinha, e raspas de cana. Soltava o animal mais tarde no pastinho.
No dia da geada que levou tudo, ele havia acordado mais cedo do que antes, a noite era clara, a manhã de nuvens baixas. Saiu da cama com as chinelas atravessadas e uma lamparina. O povo rezava, velas nas mãos. Aquele galho seco fez rezar imitando vozes, falava em outras línguas, tentava entender, deixava a voz dormida. A Carmina olhou para ele e caiu de um jeito. Olhos de espanto. Arrumou que ficasse bem, desceu e trouxe a manta, água e lá nasci.
Pus a cara no mundo num choro profundo. Limpou o rastro. Ninguém viu, cuidaram dela, da mãe. O Tião pegou o ferro, disseram para deixar; depois o caldo entorna. Isso é uma coalhada. Mais tarde despertei no orfanato. Pouco maltrato e uma voz pisada. Decima, onde ficava quando já podia, vi um dia um sujeito alto, o vento da lua iluminava e alguém deixava ali na porta um pouco de leite. Depois saí, depois que cumpri o peso, e fui para o outro do lado do rio, sei tirar leite, vender na cidade, cuidar dos animais, limpar um curral, fazer o serviço com menos sal, lavar a louça, carregar a vida.
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Bessie que partiu, e Charlie ainda mocinho.
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