Futebol: O que nos deixa mal é o que nos deixa.
Quanta gente podia estar ali e não está. O menino não se comporta de acordo com o grupo, e é posto fora, esquecido. Os melhores em campo podem ter excluídos os melhores que eles. O que nos deixa mal é o que nos deixa. Verdade, todo brasileiro é técnico de nascença, mas como temos dúvidas de qualquer brasileiro, aprendemos isso com a antropofagia que o poeta Oswald de Andrade ensinou, devoramos toda a beleza, comemos a criatividade de qualquer um, batemos na rua em professor, e todo aquele que puser suas manguinhas de fora, leva paulada para lembrar a gente que somos o bicho a ser morto no frigorífico da colonização. E o pior, pior é ser decolonial sem saber patavina das línguas autóctones, das variantes variáveis da nossa cultura, de toda idiossincrasia que faz o movimento que aponta que uma ação virou filosofia. Dá para olhar novamente como estão seguindo a regra de pseudo-conceitos, falsas moralidades, de deveres a serem cumpridos, podemos perceber o comportamento divisionista, de um fascismo protegido.
A ordem dos músicos numa banda qualquer, mesmo a da colher quebrada, da batucada, do samba, segue a hierarquia militar de antigamente, tornando-se novidade que mais amamos o dever, lavar o carro do patrão no final de semana, e mal conhecemos, - só ver a rispidez catastrófica de nossos inquilinos morais da lei -, o que seja ou possa dar sentido a palavra direito. Alguém que lê deve ser morto, calados, assim como as livrarias a serem excluídas da retidão das paredes da violência, e bibliotecas como um lençol de abnegação caridosa que protege a cultura, e um jogador que faz gol pode ser punido por não passar a bola, não cambar, segurar no ar, sabendo que bola não tem asa, não voa.
Mas essa ordem bem feita de reproduções tem feito muita gente sem pele que fala o que dá na telha, e confirma com um pedaço de discurso e conceitos inventados para manter a doença, o nosso maior mal, jogar pedra nos poetas e pendurar palavras lacustres de um atoleimado produzido. Somos técnicos da melhor estirpe, mas acreditamos que não devemos acreditar, que tudo se resolve na pizzaria, substituindo alguém de nós para que, ninguém de nós, possa mal falar. Olha, não se trata da síndorme do tomba-leite, não, isso não existe, trata-se de um história feita na intervenção criativa, de tudo que é forma, de autoritarismo. Assim qualquer um se defronta, dá ponta-pé, sabendo-se o tal.
A desordem, nosso sonho além do tal jeitinho-brasileiro, podia funcionar melhor não fosse o papel debaixo da porta, a regra que estipula que obediência é dever, que reclamação vem de grupos, e que se um se levantar, digo sozinho, digo na cara dura, esse vai ser arrebentado. Nunca se está só, e tudo é um amontoado. Só, feito de grupelhos, de ordens definidas, de populismo toleirão, de faz de conta, de pulseira para lembrar o que deve e tem de fazer.
Os times estão profissionalizados, as organizações são profissionais, então, tratando-se de um negócio de sobrevivência, nossa opinião pode ter no máximo dez por cento de desconto no cartão. Acreditar que pode melhorar é verdadeiramente conceber que a coisa está doente, precisa de remedinho, cuidados para ir sarando pouco-a-pouco, vai no conta-gotas. Enquanto isso o espírito mandão se levanta e se mantém. Cada um representa o esquema de onde veio, o grupo a qual pertence. Parece assim, que mal podemos confiar nos técnicos que o Brasil faz nascer todos os dias porque técnicamente ele não pode opinar, ele está fora, a pessoa, ela está só, e aí, na tradição, ela não pode fazer nada. É nada.
Sou um bom técnico, mas conheço na vizinhança, melhores. Temos gente para admirar, gente que não abre livros, ou não conhece recados científicos, as conceitualidades dos administrativos, os tais de fora, que aproveitam para nos impor como devemos ser, somos o Ocidente Colonizado, somos gente do sul, somos o erro do Cabo da Boa Esperança, e que podem chegar e dizer como devemos nos estabelecer na palavra, no que dizemos. É uma artificialidade ou absurdidade esquecer que além de colonialista, de uma visão separtaista, não apenas Freud, outros também eram racistas, sexistas e outros istas; se a técnica desenvolvida foi boa ou é ainda, muito bem, mas não podemos bater no peito dizendo que é do nosso time, e não sendo, não quer dizer que não possamos usá-lo, aproveitar o que tiver de melhor e jogar fora o caroço. O Brasil é negro, multiforme, bonito em sua complexidade, por isso devemos rever os nossos padrões de certezas absolutas como de sermos os melhores técnicos, (sabendo que somos de alguma maneira), e deixar de sermos tão comedidos, grupais demais, feitos de origem e identidade localizada demais, de bandeirinha e marca, e outras taronhas que complicam nossa busca de lanterna acesa por democracia, por direitos. Veja, tendo direitos, claro, temos deveres; o contrário não é o mesmo. Feitos de deveres somos espelhados na brutalidade do mando, da obrigação, de soslaio da violência gratuita, excludente.
Ao chegarmos em casa, ou o modo de dizer, estarmos aqui no país da nossa gente, necessitamos aprender a construir orgulhos, entender os nossos valores, gostar de que um reclame, que outro apóie ou discorde, mas que possamos nos manifestar de modo singular. Isso a ser aprendido e ensinado no banco da mesa, na conversa com a nossa gente, e também, - por que não? -, até na escola. A gente é muito autoritário em tudo, eu mesmo que vou pondo a linha do trem aqui, eu mesmo vejo como me derroto, e luto contra isso, desejo que todos tenhamos opiniões, que pensemos bem ao ver os nossos craques em campo, de darmos uma força de fé naquele lá, sozinho a dizer o que prefere. Você pode notar aí, é só ir a um campo, alguém da uma explicação, mesmo as entrevistas finais dos nossos jogadores, carregados de etiquetas, "primeiramente bom dia," "boa tarde," "boa noite", e depois eles explicam, as perguntas dos entrevistadores também são do tipo explicativo "estamos aqui com ..." e "ele já fez isso", "ele é da cidade de...", e piora "agora ele vai falar sobre o que aconteceu no campo, detalhando isso e aquilo". Parece bobagem essa minhoca solta da palavra, parece sem sentido, mas na verdade, ao que bem me parece, estamos explicando, colocando o "conceito" na boca do outro. Isso acontece na educação, no teatro então, nem se fala "essa peça foi organizada...", a "peça musical que vocês vão ouvir tem algo difícl, mas nem tanto...", em tudo se explica porque em tudo se pensa que somos otários, burros, que não "sabemos" aproveitar. Não precisa saber nada para gostar do clássico ou mesmo não gostar.
Dever ganhar. Essa é outra montanha de ilusões. E por agora, vou descansar o cavalo, vou deixar os espíritos em paz, e lembrar a mim mesmo e a você que me ouve nesse tranco de caminhão marcha-seca, que podemos ser menos grupalizados e mais singulares, duvidar das certezas vozeiradas das pessoas ao redor, duvidar, inquirir, perguntar e procurar reesponder se podemos nos tornar uma democracia, se podemos deixar de seguir as organizações, a ordem do dia, o dever-fazer para um talvez, e assim deixar que renasça a várzea, que a gente brinque de futebol, que sabemos desobedecer e fazer ao nosso modo, de não termos medo de sermos todos excluídos, porque o valorde desses jogadores, independente quanto ganhem, acho que merecem, devia passar pela liberdade de serem, como nós, os melhores jogadores do mundo, os melhores técnicos.
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