É-de-morte


 Contou-me que desgostava as caras peladas, a voz fingida de rouquidão, o olhar intrometido, o toque, e já abraço, tapinhas na cara, nas costas, um beijo, risadinhas carnais, os muxoxos, rebolado, a nudez, o caso é o descaso, fala alta e olhar de desprezo, gestos de nobreza, assuntos sobre pasta de dente, e o sarro na voz cheia de vogal, a oferenda, e o jeito de intimidade que aponta a pessoa.

    O lugar, tudo coisa, aquele fervor, o desembaraço de livrar a conta, dar o pinote, ver se estou na esquina, a navalhada, mexer nos bens alheios, abrir a geladeira, rir na cara das exigências, se meter a sábio porque toca umas musiquinhas na orquestra, os papos de exposição realizada no fundo da recepção de uma pensão.

Vendeu a empresa para um tal de fala mansa que não diz oi para não gastar a verve, dormiu no átrio das pentecostes de um casino entre lágrimas  e exaltações dos que perdem as calças ou saem arrumadinhos. E as vantagens de poder, a ferir, cortar, mijar na via pública e passar desapercebido frente às câmeras do pedágio e não haver do mundo reconhecimentos literários, nobelismos nashville, de ser decaído, prestes ao garfo do maldizer.

E a pachorra de caminhar sem vírgulas, de não haver em parte alguma acentos, ao menos a rua limpa, negócios sérios em ilhotas fiscais, cabelo duro do tipo polido político perfumado, e levar tiros ao pedir informações, e ser o último selvagem que ama porque desconfia, tem vergonha da seleção, o medo maior do médico que pede milhas do cartão de crédito para novas consultas, o advogado que sana suas contas, e as outras gentes da terra engomadinhas que obedecem ao crime para não perder alguma vantagem e morrer frente a uma confeitaria  de bala perdida e ser aplaudido ao mesmo tempo que é espancado. 

Eu lhe contei que a exclusão é nossa exclusividade, que parasse de se enganar, porque era jeitoso, que logo ia canibalizar até sentimentos, acreditar na anarquia contra a burocracia dos fuzilamentos, e amar por amar no preço, ser bandido na honestidade e na cara dura, e que por fim, o samba ia comer se enchesse mais o saco.


Ele riu, dei uma mordida na orelha dele. Ficou doido. Você é-de-morte. 

Não tenho essa cara manchada na varíola não, meu irmão, aqui, arruaça é piquenique, disse para ele. Tirei o fio.


Ficou ardido que nem pimenta. Somos amigos. Inventou uns pagodes, fala sozinho, me disse que canta no banheiro e se agacha, faz macaquinho. Tenho dó. Gosto da malvadeza dele. Levava tudo muito a sério, cara hierarquizado. Mas, enfim, a gente veio para esse mundo para ajudar. Ser brasileiro é muito bonito, não se confia nem nos filhos, mas na hora do vamos-ver, a gente se junta e ninguém é capaz de soltar. E nos amamos muito, até a saideira, e é tudo, tudinho de bem.

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