Boxe sem luvas: a caixa vazia
Escrevo para que esse esquecimento, corrompido em palavras possa ser lembrado.
A invenção do perdoar, “deixar-para-lá,” é uma falácia; na estampa do frasco guardado no armário está escrito e sinalizado “veneno” e não no copo em cima do piano. Não sei como me perdoar dos meus maltratos comigo mesmo. A autopunição parece uma autopiedade planejada.
Vi isso, de alguma forma parecido no boxe, e não em sua intrínseca brutalidade. Escrevo essa carta para morrer o pensamento conclusivo, acertado, protegido ou patrocinado.
Naquele tempo o boxe; a violência medida em técnicas e habilidades; estilos, modos de ação criadas; equilíbrio emocional, corpo estruturado; definições de estratégias e táticas; a ética regulamentada e um valor pessoal perseguido e desejado; um drama em uma comédia.
O teatro de cortinas abertas, o gesto perfeito na intenção investida, o riso e a dor distribuído. Alteridade impossível. Gritam: “não sou esse e nem aquele.” Mas é “perdoável” diante o medo de qualquer identidade de um comunitarista: “perder ou vencer, e não ter a vergonha de ter lutado” com exceção à vergonha (o mínimo da decisão contrária a uma totalidade esperada do comportamento humano).
Na profissão, a identidade vem embrulhada aos sinais que a indicam, e até gritam em muitas línguas, e antecipadamente pode ser reconhecida e apontada, e se entende que alguém parece muito ser um discípulo, mestre, astronauta, e nem sempre identificável, o janota, o clown, o ator canastrão, entre outros. E para ser pó-antigo, pouco se percebe ou é possível identificar, o jogador de fliperama.
O erro, ou o grandioso erro, tanto faz, entra a marteladas na memória, e isso quando o identificável, a si mesmo se identifica com a sua profissão e sujeito de si mesmo, seguindo os protocolos ou os pressupostos pessoais, culturais, históricos conhecidos, e os relacionais e interacionais sociais.
A identidade de santo, de bom, de corajoso lutador, de artista dos punhos pode ser mudada- às vezes internamente, outras externamente, ou na “conversa” entre ambas em uma espécie psicológica de catarse de reconhecimento e mudança, e na tomada de decisão radical em relação à existência, identidade profissional.
O boxe é uma violência muitas vezes definida como “a grande arte” e até horror legalizado.
Vivo a me perguntar por que eu sou eu quando não devia ser quem sou.
A briga é a estupidez generalizada da face humana que se agarra fora do ringue a uma crença e a uma identidade “desconhecida” ou conhecida da patologia social. Esqueci, por isso escrevo isso, uma espécie de terceiro sinal, para ajudar lembrar para não esquecer o que foi esquecido. Não sei bem, ando sem luvas.
Você pode saber, saber-lembrado o que é esquecido, e sabe bem que lembra, por isso, esquecer é imperdoável, ainda mais para aqueles que são parecidos comigo porque possuem pouca memória. Eu não me lembro do que lembro, acho que ando no quadrado errado ou fui nocauteado.
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