In Memoriam das doces perdas

 


Lembrei disso outra vez. Alguns amigos não gostam. Mas eu sim, e por muitas razões. Meu pai parava lá com sua Vemaghete,  “nosso primeiro orgulho nacional”, vez quando. Mais tarde, levava minha filha. E meu filho, e ia também só. Aprendi a ler na biblioteca, quando foi mais pública, conhecida. Havia bibliotecárias, elas me educaram a buscar outras línguas. E a gostar disso.  Tinha as prateleiras que não carregavam pratos naquela época. Lembro mal: russos, alemães, ingleses, italianos, espanhóis, era mais ou menos essa sequência. Prometi ler todos que gostasse, como diz Borges. E fui até a cara dos gregos, comer horas desconhecidas de latim. Se podia fumar. Vi um grande desfilando de cachimbo, e uma outra encantada que sorria de olhos prensados, assim, ali de me lado. Transpirava, assustado, envergonhado de me esconder no canto mais fundo da mesa. Retirar vô calma aquela quantidade, arrastando com cuidado para não atrapalhar aquela alma grande. Azar meu de ficar apontado, ouvi, a voz disse: esse pode deixar aberto. De pensar que Novalis ficava. Deu-me medo e alegria porque compartilhávamos um gosto desgostoso. E se levar embora emprestado, não, não pode, esse escritor da quebrada do Iuro não mora aqui. Será parente de João Goulart? Fui derretendo meus passos, não podia gritar, nosso autor, nosso autor sentou-se à minha mesa! Devia fingir descaso, mentir que o amava, possuía um vergonhoso orgulho de ser brasileiro e ignóbil.

Aquilo tudo me confundia. Será que posso me sentir feliz? “Cartas a um jovem poeta”, ainda estava na segunda fileira. Chovia, naturalmente, corri agarrado ao descaso, à vileza sordidamente aprendida de não ser nada e ninguém é nada aqui. Só os furibundos, a panela de alumínio ácida que produz o nosso Alzheimer. 

Lanchonete Itália me salvava, ridículo. Podia engolir o choro, estufar, devorar os dedos. Dizer nada, escrever nada e ser verdadeiramente uma expectativa, a coisa. Nunca mais pude sentar-me naquela mesa. Às vezes, punha ali um livro de língua estranha, como a uma oferenda, in memoriam, da minha mais bela e trágica insensatez.

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