Teatro das Almas Desanimadas


 



Não tenho mais tempo, falta a respiração e uma dor de ar, morreu agora o último momento, e fechei o livro

sem fé. Confissões esquecidas. Valas acumuladas em palavras. Detrimento de detrito, pedaço do alento, som baixo para o minúsculo acento, estou a comer oxigênio. Tanto carbônico falar. 

Foi por causa disso, eu acho. Escrevo para que você não me diga nada. Pesadelo. Li esse sujeito. Agostinho. 

Pensei em dizer algo. Mas é feio. 

Receba meu carinho. Não fosse amiga, não diria uma linha. 

Às pessoas amigas, vai o trágico, e se diz absurdos. Receba meu beijo.

Me responda logo.

Tive pesadelos. Nele você vivia com alguma alma plasmil de imensa pobreza humana, jornalismo de favorecimento, submissão por honra a capataz, beijar capacho, alma de carrapicho, sangue-bom de carrapato. Sabe, sonhei com esse peso de pobre-teatro anti-grotovski, de analfabetismo em valores humanos, arraigado e vivo na fala e no sangue. Fora isso, pobreza mental. Não há teatro nobre, de catecismo ou de ferramenteiro, e vi aquela nuvem de sombra capaz de te fulminar. Era sonho o plasma pegajoso que faz satanás-bom. Horrível. Daí fui à entrada do teatro. Tive de voltar para casa. Acredita? Estavam lá os muros. As carnes esponjosas. E pensei: será que esse pesadelo vai passar? Será que terei de ouvir sotaques, acentos de voz, ver a marca de cena, esparadrapos no chão do tablado, aquela estúpida parada, o objeto de cena nas mãos, os olhos obedientes a procurar o diretor tecnicista em busca de alguma resposta: está bem aqui? Estou fazendo certo? E pior ouvir qualquer murmúrio, o ponto. A descrição cênica do tipo direita-alta. Entram as traquitanas tecnológicas, os efeitos, o tombo da moda, o lindo movimento que diz: ó, eu fiz ginástica olímpica para fazer isso. E ainda vejo você no meio desses bispos, essas almas diagonais que negam, nunca devolvem o texto. Cortam a sua frente numa disputa de pedintes a comer a luz, três-quartos. A dureza forçadamente pasma do corpo, apenas para chamar a atenção. Faz morrer a cena, o pote derramado, o bife devorado e vomitado. Carne moída. Essas almas frias e tenebrosas, egoístas, pé-de-pano, sorreitas, pústulas sussurrantes. A voz agressiva, aquela coisa sem alma. Precisa ser agressiva porque é incapaz de um ato sublime. Deve articular como um reator nuclear. Diz: estou no limite. Entre inferno e inferno de profundidade rasa. Apatia deseja ser vibrante. Mas é incapaz de servir um prato ao outro. Foi esse sonho. Esse pesadelo. O riso canallha do produtor, dessa produtora que vem assaltando, dando o truque. Escondendo o dinheiro: é o que podemos pagar, essa cidade, você sabe, não temos público. Receba isso. O sindicato diz que é até muito. Merecia menos. E os ditadores, as cavas secas que nunca gostaram do teatro, nem de pessoas, mas as exploram. E elas correm para eles, os beijam amedrontadas. Neonazistas de estrelas. Atacam, corrompem, prendem seres e roubam. Na cara dura. Atrás dos ombros flácidos está um exército pior. Costa-largas. Criminosos do teatro que o tornaram essa boçalidade semi-realista com adornos de efeito surreal. Dominar o artista, demoniza-lo. São plastas obedientes que necessitam de textos intestinais, que fazem apologia às fezes afetivas. Não é mais necessário dizer: merda-merda. Terrível sonho. Pesadelo de horror. Ouvi do único crítico pago para não criticar: Na fossa em que se encontram, pôde-se dizer qualquer coisa, bom-esgoto.

Ficam ali, entre a portaria e o incentivo que agrada, a bilheteria. Pastoreiam, levam ao matadouro ético as estéticas infalíveis para a idiotice agrupada. Sonhei isso. Vivia com alguma gente escarrada, brilhante no verde amarelado de um tumor, antraz.

Sinto, mas tive de lhe contar.

Uma hora dessas, não sei quando, corremos para assistir alguma função. 





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