O inferno
Estou te contando isso porque não tenho o que fazer, não estou na sala de negócios, e por nada, talvez isso seja uma brutalidade ao espírito que vende, fábrica e acumula dinheiro, fofoca para juntar uma féria a mais, enfim, sinto que ofenda as almas práticas, as almas engastadas no arado.
Acho que não tenho saída, às vezes bate algo dentro, uma porrada interna querendo sair goela fora. Sei que não é comum em um mundo engenhado no cálculo, mas digo que é amor, um pouco perdido, tantas vezes encontrado. Uma infância atarracada, gorda, a vida escalada nos confetes de bolo de aniversário que marcam o número das velas, o tempo.
Ela se confundiu, penso nisso. Entrou lá em casa e foi ficando. Alma, essa coisa gasosa. Eu ia vê-la, outras vezes o contrário. Os dias chatos, mornos, acalentados no carinho, naquela voz que diz: fica quieto, não mexa em nada, a vida é assim mesmo, esse marasmo. E eu dei um jeito importunar esse arrasto de caracol.
Lembro bem, a minha mãe me arrumava para ir à casa da Laysa. Depois do início da tarde. Antes de meu pai voltar aos negócios, ele vendia chapéu e capas de gabardine escuras. Ele usava delas.
Ele me levava àquela casa sem tamanho, um troço fincado no alto de onde se podia ver um rio pequeno, um grande, a cachoeira que mandaram fazer, o lago que também fizeram, o bosque onde havia animais selvagens mais ou menos domesticados, se via o jardim, a fonte do jardim, uma relva extensa e um céu verde que só havia lá.
Às vezes as lembranças ficam cheias de teclado, outras sem roupa, carregadas de frutas coloridas e doces, bichos alimentando paz, o campo dormido, e a busca do passado fica balançando ou estatelado no jardim. A minha casa era uma demolição em construção, todos os dias uma parede mudava de lugar, o barulho do rio dizia algo que assombrava, o vento nas árvores cantando, o som surdo que batia contra um oleoso muro de águas voadoras, fatias do tempo. Papai me levava naquela melancia, o furgão arredondado.
Tudo longe, a colina, aquela construção no alto, o caminho ladeado de espírito-santo e capim limão, o campo de verduras e as pastagens ondeadas pastagens em um profuso desfile manso de imensas vacas de úbere cheio, douradas, escuras como a pele da noite, brancas de nuvens, cinzentas, de marrom e bege, de branco e preto, e aquele cão imenso de orelha em pé caminhando por nada. Ele me deixava com a bolsa da escola.
Batia uma campainha e aparece aquele alto, passava por ele, esperava. A dona Corina vinha sorridente com aqueles óculos esverdeados, as mãos cansadas envolvidas uma nas outras mostrando alegria, o sorriso que falava, montada em um vestido nunca visto de cor desconhecida, macio. A vida era um inferno gelado, de sorvete.
Ela me abraçava e dizia que bom que veio, esperava tanto, como está sua mãe, e seu pai, e outras gentilezas que as pessoas do alto têm com crianças. Eu devia ser sério. Pensava me pendurar numa daquelas cortinas pesadas, saltar do espaldar da cadeira imensa para o sofá de patinhas de agulha, podia me enrolar naquele tapete macio e me fazer de qualquer coisa que desaparecesse, um monstro bom.
Gostaria de atiçar toda aquela coleção triste das bonecas risonhas, salvá-las, jogá-las uma a uma na piscina, deixá-las em um nado improvisado, chutar aquelas bolas plásticas e coloridas que ardiam aos olhos, correr pela dispensa gelada e comer todas as frutas, abrir uma das quatro geladeiras onde estavam os doces cativantes, balançar as gelatinas, comer com colher os cremes, e aquelas coisas vermelhas pequenas e suculentas que ficavam em potes, as cerejas.
A boca de Laísa são como duas cerejas. Os cabelos penteados em forma de canos, todos enrolados como molas densas sustentados por fitas escarlates vivas, o vestido godê, a meia com desenhos bordados, o sapato rubi, e uma blusa branca de uma palidez de céu, quando o céu fica sem cores, quando o fim da tarde é um filó dependurado como uma rede de mosquiteira, a gaze que cuida. Ela se sentava ao piano. Aquela beleza, alma caipira, afinada no Mozart.
Achava antigamente que, como pêssego em caldas, um bom piano estaria mergulhado em um imenso pote, para tocá-lo se demoravam a tirar a calda, puxa-lo com uma espécie de garfo e colher, deviam subir em uma escada e fazer todo aquele esforços, depois o secavam, colocavam no lugar certo e Laysa tocava. Era como dizer, cauda de cachorro, de coelho, de cavalinho ou de vaquinha.
No quarto contíguo havia um piano de armário. Estranho alguém guardar roupas no armário que era piano. Por quê? Talvez para que o piano não perdesse a intimidade com quem o tocava. Se tirava toda a roupa para enfim tocá-lo. Como é infinita a bobagem, ela em si mesmo tocada, despretensão, mas aos olhos curvos é continuamente pesada como pensamento que fica, e outro que voa na cabeça de qualquer criança, eu acho.
Dona Corina, tinha esse nome por causa da música, logo me levava à sala de jantar, me servia um pedaço torto de uma torta e um suco de uma fruta desconhecida, tinha o aroma de flores com goiaba e manga. Outras vezes um refrigerante, uma copa de suco de uva, e assim variava-se, empadas, doce de arroz que é diferente de arroz doce, um é feito a um forno e levado em pedacinhos à geladeira, vai nele um cremoso transparente de açúcar queimado com pedaços de ameixas desidratadas, e o arroz doce é o arroz doce mesmo.
Pastéis, foguetes que eram um palitos de frutas tostadas com chocolate e alguma pimenta, adorava pudim de leite, os de queijo nem tanto, cor-de-rosa, com bolachas, pavê, pães com nata e pasta de amendoim, chás quentes de tantas cores. Era um sucesso em tudo. Não tenho certeza, penso que lembramos mais das faltas.
Canteiros e canteiros de verduras, as sinetas dos portões, a cara triste do velho Gildo. A cozinha pendurada com panelas frente às janelas, a água corrente, o secador, o lavador, e a sala arredondada que descia as treliças até o rosal, vermelho e denso, cheio. Espero há tanto tempo, tenho vontade de me pendurar no lustre.
Um bode passa perto do celeiro, olha para mim como velhos amigos, faz assim para o cincerro avisar de sua chegada. Tolice, um enfeite que canta. Laysa entra, o vestido preto, a blusa branca, o lenço no pescoço, joga os sapatos, me beija e se joga no sofá.
O mesmo riso e finge dormir. A chaleira toca, enquanto preparo o café ouço o piano. Um som novo, afinado, a canção pipocada. Tomamos café, bananas na tigela, poucas, e leite condensado. Pela janela entra a última luz da tarde, da cor verde e profunda.

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